Quando o São Paulo quase deixou de existir: a crise de 1935 e a refundação do Tricolor
O São Paulo FC quase deixou de existir em 1935, quando uma fusão apagou o departamento de futebol do clube. Entenda a crise, a refundação por um grupo de sócios e o lendário Jogo das Barricas.
⚡️ Leitura dinâmica
- Em 14 de maio de 1935, uma fusão com o Clube de Regatas Tietê extinguiu o futebol do São Paulo.
- Um grupo de cerca de 20 sócios se recusou a aceitar o fim do clube e o refundou em 16 de dezembro de 1935.
- O apelido Clube da Fé nasceu dessa quase ressurreição, cunhado pelo jornalista Tomás Mazzoni em 1937.
- Em 1938 o São Paulo viveu nova crise, palco do lendário e controverso Jogo das Barricas.
É comum ouvir que o São Paulo "já quase faliu" em algum momento da sua história. A frase não é exagero de torcedor: existiu, sim, um episódio real em que o departamento de futebol do clube deixou de existir por alguns meses e precisou ser reerguido do zero por um pequeno grupo de sócios. Não houve uma falência decretada judicialmente, no sentido jurídico do termo, mas o Tricolor viveu algo próximo disso na prática, em 1935.
Como o São Paulo nasceu, em 1930
O São Paulo Futebol Clube nasceu em 25 de janeiro de 1930, da união entre o Club Athletico Paulistano, que cedeu jogadores e dirigentes, e a Associação Atlética das Palmeiras (sem relação com o Palmeiras de hoje), que cedeu o estádio da Chácara da Floresta. As cores do escudo vêm exatamente dessa fusão: vermelho do Paulistano, preto da Palmeiras, branco simbolizando a união dos dois.
O Paulistano saiu do futebol por uma questão ideológica, não financeira. O clube defendia o amadorismo puro e liderou a criação da Liga de Amadores de Futebol em oposição à profissionalização do esporte, que avançava no Brasil no fim dos anos 1920. O modelo amador se mostrou inviável, a liga se dissolveu em janeiro de 1930 e o Paulistano encerrou o departamento de futebol na mesma data, seguindo apenas com esportes olímpicos como tênis e natação até hoje.
A crise de 1935 e a fusão que apagou o futebol tricolor
Nos cinco anos seguintes à fundação, o clube acumulou dificuldades financeiras e políticas internas. Em 14 de maio de 1935, a maioria dos cerca de 200 sócios fundadores aprovou uma fusão com o Clube de Regatas Tietê. Na prática, essa fusão extinguiu o departamento de futebol do São Paulo. Para efeitos esportivos, o clube deixou de existir.
A refundação de 16 de dezembro de 1935
Um grupo dissidente de aproximadamente 20 sócios não aceitou o fim do futebol tricolor. Reunidos no escritório do advogado Sílvio Freire, na região da atual Praça da Sé, esse grupo refundou o clube em 16 de dezembro de 1935. A nova diretoria foi liderada pelo presidente Manoel do Carmo Mecca e pelo diretor-geral de esportes Porfírio da Paz, que chegou a gastar parte da própria fortuna para recolocar o time de pé.
A primeira partida da nova fase aconteceu em 25 de janeiro de 1936, contra a Portuguesa Santista. Foi o jornalista Tomás Mazzoni quem cunhou, em 1937, o apelido que o São Paulo carrega até hoje: Clube da Fé, referência direta a essa quase ressurreição a partir do zero. Em 2013, o Conselho Deliberativo do clube oficializou as duas datas na história oficial do São Paulo: 25 de janeiro de 1930 como fundação, e 16 de dezembro de 1935 como refundação.
1938: nova crise e o lendário Jogo das Barricas
Três anos depois de se reerguer, o São Paulo voltou a passar por dificuldades financeiras, agravadas por uma excursão mal sucedida. Duas coisas marcaram esse período. A primeira foi uma nova fusão, em 25 de agosto de 1938, com o Clube Atlético Estudante Paulista, que trouxe reforços, o estádio Antônio Alonso, na Moóca, e o técnico Vicente Feola, que anos depois levaria a seleção brasileira ao título mundial de 1958.
A segunda foi o episódio mais lembrado dessa fase: o chamado Jogo das Barricas, um torneio amistoso disputado em julho de 1938 no Parque Antártica, reunindo Corinthians, Portuguesa e Palestra Itália (hoje Palmeiras), com barricas espalhadas pela arquibancada para arrecadar dinheiro para o São Paulo. A lenda ficou marcada no imaginário do torcedor tricolor como um gesto de solidariedade dos rivais. Vale o registro honesto: existe controvérsia historiográfica sobre esse episódio. Parte dos pesquisadores do clube aponta que não há registro oficial de que o jogo tenha ocorrido exatamente como a tradição conta, e que, por ter sido um torneio organizado pelo próprio São Paulo, a renda arrecadada sempre seria do clube, não uma doação dos adversários.
E hoje, o São Paulo está livre de crise financeira?
Não completamente, mas também não há qualquer processo de falência em curso. O clube vive uma fase de dívida elevada, sem uso do termo falência por parte de fontes jornalísticas sérias. Em 2024 a dívida chegou a R$968,2 milhões, com déficit de R$287,6 milhões, o quinto resultado negativo em seis anos. Em abril de 2025, o superintendente de futebol Márcio Carlomagno chegou a falar publicamente em dívida "na casa dos R$900 milhões".
O clube fechou 2025 com superávit de R$56,8 milhões e reduziu a dívida para R$858,2 milhões, apoiado em faturamento recorde perto de R$1 bilhão e em um FIDC (fundo de recebíveis) de R$240 milhões, negociado com a Galapagos Capital e a gestora Outfield, para reestruturar passivos bancários. É um cenário de aperto financeiro real, mas bem distante do que aconteceu em 1935, quando o futebol do São Paulo literalmente deixou de existir por alguns meses.
O legado que sobrou dessas crises
Apesar dos dois sustos financeiros, o São Paulo se tornou um dos maiores clubes do país. São três títulos da Libertadores da América (1992, 1993 e 2005), três Mundiais de Clubes nos mesmos anos, e seis Brasileirões (1977, 1986, 1991, 2006, 2007 e 2008), além da Copa do Brasil de 2023. Rogério Ceni, ídolo maior do clube, é o jogador com mais partidas pela história tricolor, e Serginho Chulapa segue como um dos maiores artilheiros do São Paulo. A crise de 1935 quase apagou tudo isso antes mesmo de começar.
Reportagem produzida com base em fontes históricas do próprio São Paulo FC, e em cobertura jornalística recente sobre a situação financeira do clube.
Este conteúdo pode ter sido produzido com auxílio de inteligência artificial e passou por curadoria jornalística da redação Futemais.
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