Foto: acervo Futemais
Corinthians: de cinco operários do Bom Retiro à Democracia
O Corinthians foi fundado em 1910 por cinco operários reunidos à luz de um lampião no Bom Retiro, e batizado com o nome de um time inglês. Sete décadas depois, virou o clube onde os jogadores decidiam tudo por voto, do presidente ao massagista.
⚡️ Leitura dinâmica
- O Sport Club Corinthians Paulista foi fundado em 1º de setembro de 1910 por cinco operários do bairro do Bom Retiro, em São Paulo.
- O nome veio do Corinthian Football Club, time amador inglês que havia excursionado pelo Brasil e encantado o público.
- O primeiro presidente, Miguel Battaglia, resumiu a proposta numa frase que virou identidade: o Corinthians seria o time do povo.
- Entre 1982 e 1984, a Democracia Corinthiana levou o voto igualitário ao vestiário, com decisões tomadas por todos, do presidente ao massagista.
- O movimento, liderado por Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, rendeu os títulos paulistas de 1982 e 1983 e virou símbolo político da redemocratização.
Poucos clubes têm uma origem tão literal quanto a do Corinthians. Não há fundador aristocrata, não há sede de clube inglês, não há sócio fundador com sobrenome de rua. Há cinco operários e um lampião.
1910: o time nasce na rua
Em 1º de setembro de 1910, cinco trabalhadores do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, se reuniram à luz de um lampião e fundaram o Sport Club Corinthians Paulista. Os nomes: Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Corrêa e Carlos da Silva.
O nome veio de fora. O Corinthian Football Club, time amador inglês, havia excursionado pelo Brasil e impressionado o público com seu futebol e sua postura esportiva. Batizar um clube de bairro operário com o nome de um time inglês era, ao mesmo tempo, homenagem e ambição.
O primeiro presidente, Miguel Battaglia, definiu a proposta numa frase que o clube carrega até hoje: o Corinthians seria o time do povo.
O que essa origem produziu
Não é discurso de marketing retroativo. A composição social do clube moldou a relação com a torcida de um jeito que se manteve por mais de um século: uma base popular, numerosa, concentrada nas periferias e nos bairros de trabalhadores, com uma cultura de presença que atravessa fases boas e ruins.
É essa base que explica o fenômeno seguinte, que é o capítulo mais singular da história do clube e um dos mais singulares do futebol mundial.
A Democracia Corinthiana
Entre 1982 e 1984, o Corinthians fez algo que nenhum clube grande havia tentado: transferiu o poder de decisão para dentro do vestiário.
Sob liderança de Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, o elenco passou a decidir por voto igualitário praticamente tudo que dizia respeito ao time: concentração, horário de treino, contratações, viagens. O voto do massagista valia o mesmo que o do craque, e o mesmo que o do presidente.
O contexto importa. O Brasil vivia o fim da ditadura militar e o começo da campanha pelas eleições diretas, e o time levou isso para dentro de campo de forma explícita, entrando com a frase "Vote em 15" estampada na camisa, um chamado à participação eleitoral.
E funcionou dentro das quatro linhas: vieram os títulos paulistas de 1982 e 1983.
A Democracia Corinthiana é estudada fora do futebol, em cursos de administração e ciência política, como experiência real de autogestão em uma organização de alta pressão e resultado mensurável. É raro um vestiário de futebol virar objeto de estudo acadêmico por causa do modelo de gestão, e não por causa dos títulos.
Uma linha que atravessa o século
Colocadas lado a lado, as duas pontas dessa história rimam. Em 1910, cinco operários fundam um clube porque o futebol da cidade não era deles. Em 1982, os jogadores desse mesmo clube decidem que quem joga também decide.
São gestos separados por setenta e dois anos e movidos pela mesma ideia: a de que o futebol pertence a quem o pratica e a quem o sustenta, e não apenas a quem o administra. É a mesma discussão que, em outra escala, atravessa a relação entre elenco e comando em qualquer clube até hoje.
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