As camisas aposentadas de Baresi e Maldini em San Siro. Foto: Дмитрий Кошелев/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Franco Baresi, o zagueiro que a Inter dispensou e virou lenda

Morto aos 66 anos, Baresi passou 20 temporadas e 719 jogos no Milan, desceu à Serie B duas vezes sem pedir para sair e jogou a final da Copa de 1994 cerca de três semanas depois de operar o joelho. Depois perdeu o pênalti que carregou por trinta anos.

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Redação Futemais
6 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • Franco Baresi morreu em 31 de julho de 2026, aos 66 anos, um ano depois de operar um nódulo no pulmão.
  • A Inter o dispensou por considerá-lo franzino e ficou com o irmão Giuseppe, que virou capitão do clube rival.
  • Ele passou 20 temporadas e 719 partidas no Milan, e desceu à Serie B com o clube em 1980 e 1982 sem pedir para sair.
  • Sacchi acabou com a função de líbero que Baresi exercia, e ele se reinventou como o comandante da linha de impedimento da defesa mais copiada do futebol.
  • Na final da Copa de 1994 jogou os 120 minutos cerca de três semanas depois de uma artroscopia no joelho, e depois errou o primeiro pênalti da disputa.

O Milan anunciou na manhã desta sexta-feira, 31 de julho de 2026, a morte de Franco Baresi, aos 66 anos. Ele havia passado por cirurgia em 2025 para retirada de um nódulo no pulmão. A nota do clube não falou de conquistas, falou de um número.

A história do Milan está em lágrimas pela morte de Franco Baresi. Seu exemplo e sua profundidade serão, para sempre como sua camisa número 6, parte integrante e fundamental do DNA e do caminho de todo o clube.

A camisa 6 está pendurada em San Siro desde 1997 e nunca mais foi usada por ninguém. Esta é a história de como ela chegou lá.

O menino que a Inter dispensou

Franco Baresi nasceu em 8 de maio de 1960, em Travagliato, no interior de Brescia. Ele e o irmão mais velho, Giuseppe, ficaram órfãos ainda adolescentes, e os dois tentaram a vida no futebol de Milão ao mesmo tempo.

A Internazionale ficou com Giuseppe e recusou Franco, considerado franzino demais. O Milan o aceitou nas categorias de base em 1974, quando ele tinha 14 anos.

Os dois irmãos viraram capitães dos dois lados do Derby della Madonnina, e o duelo familiar atravessou uma década de clássicos. Giuseppe jogou 559 partidas pela Inter. Franco jogou mais.

Quem o promoveu ao time principal foi o sueco Nils Liedholm. A estreia na Serie A foi em 23 de abril de 1978, numa vitória por 2 a 1 sobre o Verona. Aos 22 anos, ele já era o capitão do Milan. Ficaria com a braçadeira por quinze temporadas.

A lealdade que definiu a carreira

A parte da história que hoje soa inverossímil não são os títulos, é o que aconteceu antes deles.

Em 1980, o Milan foi rebaixado à Serie B por decisão administrativa, punido no escândalo de manipulação de resultados que ficou conhecido como Totonero. Em 1982, caiu de novo, dessa vez em campo. Baresi tinha vinte e poucos anos, era capitão, e já despertava interesse de clubes grandes da Europa.

Ele desceu para a segunda divisão com o clube nas duas vezes. Não pediu para sair em nenhuma.

Foram 20 temporadas e 719 partidas com a mesma camisa, de 1977 a 1997. Numa carreira inteira, Franco Baresi nunca defendeu outro clube profissional.

Como Sacchi transformou o líbero no chefe da linha

Baresi começou como líbero, a função clássica do futebol italiano: o zagueiro que joga atrás da linha, varrendo o que passa, sobra defensiva do sistema. Era o coração do catenaccio.

Quando Arrigo Sacchi chegou ao Milan, em 1987, essa função simplesmente deixou de existir no time. Sacchi montou uma linha de quatro em zona, sem sobra atrás, que subia junto para comprimir o campo num 4-4-2 agressivo. Era o oposto exato de tudo que a Itália havia ensinado ao futebol por trinta anos.

A maioria dos líberos da época não sobreviveria a essa mudança, porque ela apagava a função. Baresi se reinventou dentro dela e virou a peça que a fazia funcionar: o homem que comandava a linha de impedimento. Bastava levantar o braço, e os quatro subiam ao mesmo tempo.

A defesa formada por Mauro Tassotti, Alessandro Costacurta, Franco Baresi e Paolo Maldini é citada até hoje como a melhor linha de fundo já montada. Foi a base dos 58 jogos de invencibilidade na Serie A, série que rendeu ao time o apelido de Gli Invincibili, e de uma coleção que inclui seis Campeonatos Italianos, três Copas dos Campeões da Europa, duas Copas Intercontinentais, três Supercopas da Europa e quatro Supercopas da Itália.

É por isso que ele aparece em qualquer conversa sobre evolução tática do futebol. Baresi não foi só um grande zagueiro, foi o jogador que provou que a defesa em zona funcionava contra os melhores ataques do mundo.

💡 Curiosidade

Franco Baresi é campeão da Copa do Mundo de 1982 sem ter entrado em campo um minuto sequer no torneio. Tinha 22 anos e disputava posição num elenco em que o líbero titular era Gaetano Scirea. A medalha de ouro que ele levantou é a única da carreira dele em Copas, e a única que ele não ajudou a conquistar dentro de campo.

Os 22 dias entre a cirurgia e Romário

Pela seleção italiana foram 81 jogos, entre 1982 e 1994, e três Copas do Mundo: campeão em 1982 sem jogar, terceiro lugar em 1990, vice em 1994.

A de 1994 é a que define a figura dele.

Na fase de grupos, contra a Noruega, Baresi sentiu o joelho. O diagnóstico foi lesão no menisco, e ele foi operado por artroscopia no dia seguinte. Aos 34 anos, com a Copa em andamento e o time dependendo dele, a conta parecia fechada.

Sacchi avisou na véspera da decisão que ele jogaria. Em 17 de julho de 1994, no Rose Bowl, em Pasadena, cerca de três semanas depois de operar o joelho, Franco Baresi entrou em campo para marcar o Brasil de Romário e Bebeto numa final de Copa do Mundo. Jogou os 120 minutos. O jogo terminou 0 a 0.

O pênalti que ele carregou por trinta anos

A final foi para a disputa de pênaltis, a primeira a decidir uma Copa do Mundo. Como capitão, Baresi bateu o primeiro da Itália e mandou por cima do travessão. Daniele Massaro e Roberto Baggio também perderam os seus. O Brasil venceu por 3 a 2 e foi tetracampeão.

Três décadas depois, ele ainda falava daquilo com a mesma incredulidade:

Mas como é que eu fiz aquilo, como fui chutar a bola tão alto? Ainda me pergunto isso hoje.

Em entrevista sobre os trinta anos de Pasadena, Baresi explicou o mecanismo do erro com uma precisão que só quem viveu a cena consegue ter. "Quando você põe a bola na marca, o gol parece menor", disse. "Você pensa em bater num determinado canto, e aí muda de ideia."

Há uma simetria cruel nessa história. O homem que passou vinte anos ensinando uma linha de quatro a se mover como um corpo só, no exercício mais coletivo que o futebol inventou, foi derrotado no lance mais solitário que existe: um jogador, uma bola parada, um goleiro.

O capitão

Baresi encerrou a carreira em 1997, e o Milan aposentou a camisa 6 em seguida. Em 2004 ele entrou na lista FIFA 100, dos maiores jogadores vivos da história, escolhida por Pelé.

Ele nunca ganhou uma Bola de Ouro, o que diz mais sobre o prêmio do que sobre ele. Zagueiro raramente entra na conversa pelo que evitou, e quase sempre entra pelo que falhou, a mesma assimetria que explica por que só um goleiro venceu o prêmio em setenta anos.

O que restou dele não cabe em troféu individual. Restou um jeito de defender que o mundo inteiro copiou, e uma ideia de capitania que virou régua: quinze anos de braçadeira, duas descidas à Serie B sem pedir para sair, e uma final jogada com o joelho recém-operado.

A despedida

Em fevereiro de 2026, já em tratamento, Franco Baresi foi um dos condutores da chama olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina. Foi uma das últimas vezes que apareceu em público, na cidade onde chegou aos 14 anos depois de ser dispensado pelo outro clube.

A Internazionale, que um dia o considerou pequeno demais, publicou nota de homenagem no dia da morte dele.

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