Arena MRV, do Atlético-MG, um dos oito clubes SAF da Série A. Foto: Wikimedia Commons
SAF ou clube: o que cinco anos de Sociedade Anônima do Futebol já mostraram
O Brasil fechou 2025 com 117 clubes SAF, mas só 8 dos 20 da Série A adotaram o modelo. O que deu certo, o que travou no Vasco e por que o Corinthians disse não.
⚡️ Leitura dinâmica
- Balanço da Lei 14.193/2021: 117 clubes viraram SAF até o fim de 2025, contra 99 em fevereiro do mesmo ano.
- Na Série A de 2026 são oito SAFs: Athletico-PR, Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Fluminense e Vasco.
- O caso do Vasco segue sem desfecho, com ações da 777 Partners penhoradas pela Justiça em maio de 2026.
- No Corinthians, o Conselho rejeitou a proposta de R$ 2,5 bilhões da SAFiel por 40 votos a 26.
O Brasil fechou 2025 com 117 clubes registrados como Sociedade Anônima do Futebol, segundo o mapeamento nacional do portal Migalhas, elaborado por Rodrigo Monteiro de Castro, um dos autores da Lei 14.193/2021. Em fevereiro daquele ano eram 99. O crescimento foi rápido, e em 2026 desacelerou.
Na Série A, o quadro é mais modesto do que o número total sugere: oito dos vinte clubes operam como SAF. Os outros doze seguem associações, incluindo Flamengo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Grêmio. Este texto mostra quem já converteu, quem está no meio do caminho, o que deu certo, o que deu errado, e por que o movimento perdeu velocidade.
O que é uma SAF e o que a lei permite
A SAF foi criada pela Lei 14.193, de 2021. Ela permite transformar o departamento de futebol de um clube numa empresa própria, com CNPJ, capital social e acionistas, separada da associação, que continua respondendo pelas outras modalidades e pelo patrimônio histórico.
- Entrada de capital. Um investidor pode comprar participação na SAF, o que é impossível numa associação sem fins lucrativos.
- Separação de dívidas. O passivo antigo fica com a associação e é pago por regime próprio, enquanto a SAF opera com balanço novo.
- Tributação. A lei criou o Regime de Tributação Específica, que unifica tributos numa alíquota menor nos primeiros anos.
Uma confusão comum: virar SAF não é vender o clube. A associação continua existindo, dona do escudo, das cores, da sede e das demais modalidades. O que muda de mãos é a empresa que administra o futebol profissional.
Os oito clubes SAF da Série A em 2026
| Clube | Controle |
|---|---|
| Athletico-PR | SAF |
| Atlético-MG | SAF |
| Bahia | City Football Group |
| Botafogo | Eagle Football, de John Textor |
| Coritiba | SAF |
| Cruzeiro | Pedro Lourenço, que comprou de Ronaldo Nazário |
| Fluminense | SAF, a mais recente entre os grandes |
| Vasco da Gama | Em disputa judicial, ver abaixo |
Fora da Série A, um exemplo útil: o Fortaleza também é SAF, mas disputa a Série B em 2026. Virar empresa não protege ninguém do rebaixamento.
Fluminense: o último grande a converter
O Fluminense foi o clube de elite mais recente a adotar o modelo, no fim de 2025. A proposta veio da Lazuli Partners e da subsidiária LZ Sports, com participação do BTG Pactual, e envolveu um investimento total anunciado em R$ 6,9 bilhões.
O caminho foi o previsto em estatuto: apresentação ao Conselho Deliberativo em setembro de 2025, aprovação, e decisão final em Assembleia Geral na virada do ano. A estrutura de governança inclui Comitê de Investimentos e Conselho de Administração com oito membros, em mandatos de dois anos.
O que os casos concretos mostram
Botafogo: o melhor resultado esportivo
É o caso mais forte que o modelo produziu. Sob a Eagle Football, de John Textor, o Botafogo foi campeão da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro em 2024, sendo o continental o primeiro título internacional da história do clube.
O contraste dá a dimensão: o Botafogo havia sido rebaixado em 2020 e vivia crise financeira crônica.
Cruzeiro: a recuperação financeira
O Cruzeiro é o exemplo do que a SAF resolve melhor, que é dívida. O clube estava na Série B, com passivo bilionário. A conversão permitiu reorganizar o débito e reconstruir o elenco, e o time voltou à elite. O controle passou de Ronaldo Nazário para o empresário Pedro Lourenço.
Vasco: o alerta que ainda não terminou
Este é o caso que exige cuidado, porque ele continua se movendo, e porque a versão simplificada que circula, de que o clube já retomou o controle, não corresponde ao que existe hoje.
A 777 Partners assumiu a SAF em 2022 prometendo aportes que nunca foram integralizados por completo, e depois entrou em crise financeira global. A situação em 2026:
- A divisão acionária está em 30% com o clube associativo, 31% com a 777 Partners e 39% sob controle do Vasco por determinação judicial, com a disputa correndo em arbitragem.
- Em maio de 2026, a Justiça do Rio penhorou as ações da 777 na SAF, a pedido da Matix Capital. Com a penhora, essas ações não podem ser vendidas, transferidas ou dadas em garantia sem autorização judicial.
- O presidente Pedrinho retomou a gestão do clube após decisão do Tribunal de Justiça do Rio, com recurso ainda em curso.
- Em julho de 2026, a 777 protocolou interpelação judicial contra a Almirante Participações, grupo que assinou acordo preliminar para adquirir o controle da chamada Nova SAF. A empresa americana sustenta que continua sendo a legítima proprietária de 70% das ações.
Ou seja: não há desfecho. Há um clube em disputa societária, com ações penhoradas, arbitragem em andamento e dois grupos reivindicando o mesmo controle.
O pedido de penhora das ações da 777 no Vasco partiu da Matix Capital, empresa ligada a Thairo Arruda, ex-CEO da SAF do Botafogo. O mercado de SAFs no Brasil é pequeno o bastante para que os mesmos nomes reapareçam dos dois lados da mesa.
Quem está estudando: o caso do Corinthians e a SAFiel
Entre os clubes que ainda não converteram, o Corinthians é o que tem a discussão mais avançada e mais pública.
O projeto SAFiel apresentou ao clube uma proposta não vinculante de captação de R$ 2,5 bilhões, com possibilidade de chegar a R$ 3 bilhões em caso de demanda acima do esperado. Segundo o documento, os recursos seriam destinados prioritariamente à quitação de dívidas do futebol, a investimento esportivo, infraestrutura, mecanismos de governança e ao fortalecimento do clube social.
A resposta institucional, até aqui, foi negativa. Numa votação do Conselho sobre modelos de estrutura societária, manter o estatuto atual teve 40 votos, contra 26 da alternativa que previa mecanismos de controle do clube sobre uma eventual sociedade. Uma terceira proposta, mais flexível para a entrada de investidor, ficou com 10 votos. O conselho manteve o modelo sem SAF e reelegeu o presidente Osmar Stabile.
O projeto segue vivo fora da mesa de votação: a SAFiel anunciou comissão própria para destravar a proposta e cobra transparência da diretoria sobre a tramitação. É o retrato de um clube grande em que a torcida e parte dos conselheiros estão em lados diferentes da discussão.
Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Grêmio também seguem como associações, sem processo de conversão concluído.
Por que o movimento perdeu ritmo em 2026
Depois do salto de 99 para 117 SAFs em menos de um ano, 2026 começou com postura mais cautelosa entre os clubes tradicionais das Séries A, B e C. Três razões aparecem com frequência na discussão:
O caso Vasco assustou. Um investidor que não integraliza o aporte prometido e entra em crise deixa o clube pior do que antes, com o agravante de ter perdido o controle do próprio futebol.
A SAF não resolve gestão. Ela resolve dívida e falta de capital. Um controlador incompetente faz o mesmo estrago que uma diretoria incompetente, com a diferença de que o sócio não pode votar contra ele na eleição seguinte.
O sócio vira cliente. Numa associação, o torcedor associado vota. Numa SAF, ele não decide. Essa troca é o custo político da conversão, e é o argumento que venceu a votação no Corinthians.
SAF ou clube: qual é o melhor caminho
Depois de cinco anos, o que os números mostram é que a pergunta está mal formulada. A SAF é um instrumento financeiro, não um projeto esportivo.
Os dois casos que deram certo, Botafogo e Cruzeiro, têm em comum um controlador com dinheiro disponível e disposição de gastar. O que deu errado tem em comum um comprador que prometeu e não pagou. Isso sugere que a variável decisiva não é o modelo jurídico, e sim quem está do outro lado da mesa, algo que o torcedor não escolhe e a lei não garante.
Perguntas frequentes sobre SAF no futebol
Quantos clubes brasileiros são SAF?
Eram 117 até o fim de 2025, considerando todas as divisões, segundo levantamento do portal Migalhas. Na Série A de 2026, são oito de vinte clubes.
Quais clubes da Série A são SAF em 2026?
Athletico-PR, Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Fluminense e Vasco da Gama.
O Vasco ainda pertence à 777 Partners?
A situação está em disputa. A 777 detém 31% das ações, o clube associativo tem 30% e outros 39% estão sob controle do Vasco por decisão judicial, com arbitragem em curso. Em maio de 2026 a Justiça penhorou as ações da 777, e em julho a empresa entrou com interpelação judicial contra o grupo que negocia assumir o controle. Não há desfecho.
O que é a SAFiel do Corinthians?
Um projeto que apresentou ao clube proposta não vinculante de captação de R$ 2,5 bilhões, podendo chegar a R$ 3 bilhões. O Conselho votou por manter o estatuto atual, por 40 votos a 26, e o Corinthians segue como associação.
Virar SAF significa vender o clube?
Não. A associação continua existindo e mantém escudo, cores, sede e as demais modalidades. O que é vendido é participação na empresa que administra o futebol profissional.
A SAF garante que o clube não caia?
Não. O Fortaleza é SAF e disputa a Série B em 2026. O modelo muda a estrutura financeira, não o desempenho em campo.
O futebol brasileiro passou cinco anos discutindo se deveria virar empresa, e 117 clubes responderam que sim. A pergunta dos próximos cinco anos é a que o Vasco está respondendo na Justiça agora: o que acontece com um clube quando o investidor não cumpre o combinado.
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