Scanpix/Wikimedia Commons (domínio público)
Por que a camisa do Brasil é amarela e quando ela era branca
O Brasil jogou de branco de 1914 até o Maracanaço. A camisa amarela nasceu de um concurso de jornal em 1953, foi desenhada por um gaúcho de 19 anos que torcia para o Uruguai, e não foi ela que ganhou a Copa de 1958.
⚡️ Leitura dinâmica
- A seleção vestiu branco da primeira partida oficial, em 1914, até a final de 1950, e o uniforme não tinha relação com as cores da bandeira.
- Depois do Maracanaço o branco virou símbolo de azar, e a CBD decidiu trocar o uniforme.
- O novo desenho saiu de um concurso do jornal Correio da Manhã, em setembro de 1953, com uma única regra: usar as quatro cores da bandeira.
- Venceu Aldyr Garcia Schlee, de 19 anos, nascido em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, que fez mais de 300 rascunhos e torcia para os uruguaios.
- A camisa amarela estreou contra o Chile em 28 de fevereiro de 1954, mas o primeiro título mundial, em 1958, foi conquistado com um uniforme azul comprado às pressas em Estocolmo.
A camisa amarela da seleção brasileira é provavelmente o uniforme mais reconhecível do futebol mundial. Ela existe há pouco mais de setenta anos, nasceu de uma derrota, e foi desenhada por um rapaz de 19 anos que morava na fronteira com o Uruguai e torcia para os uruguaios.
Antes dela, o Brasil jogou de branco por quase quatro décadas.
O Brasil jogou de branco por 36 anos
A seleção disputou sua primeira partida oficial em 1914, e o uniforme daquele início não tinha nenhuma relação com a bandeira nacional: camisa branca com detalhes azuis, calção branco e meias escuras. Não era uma escolha simbólica, era o padrão da época, quando uniforme de seleção era assunto de praticidade e não de identidade.
Foi com o branco que o Brasil disputou a primeira Copa do Mundo da história, em 1930, no Uruguai, e as edições de Copa América das décadas seguintes. O branco atravessou toda a formação do futebol brasileiro sem que ninguém questionasse. Até 1950.
O Maracanaço e o fim do branco
Na final da Copa de 1950, no Maracanã, o Brasil precisava apenas do empate e perdeu para o Uruguai por 2 a 1. O estádio recebeu oficialmente 173.850 pagantes, com estimativas de mais de 200 mil pessoas presentes, e o resultado entrou para a história como Maracanaço.
O trauma foi tão fundo que respingou na roupa. O uniforme branco passou a ser tratado como símbolo de azar e de fracasso nacional, a ponto de a Confederação Brasileira de Desportos, a CBD, antecessora da CBF, concluir que a seleção precisava de outra cara.
O concurso do Correio da Manhã
A solução veio pela imprensa. Em setembro de 1953, o jornal carioca Correio da Manhã lançou um concurso público para desenhar o novo uniforme, com o aval da CBD. A regra era uma só: o conjunto tinha que usar as quatro cores da bandeira brasileira, verde, amarelo, azul e branco.
Venceu Aldyr Garcia Schlee, de 19 anos, nascido em Jaguarão, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, e morador de Pelotas. Ele conta ter feito mais de 300 rascunhos antes de fechar a combinação que virou símbolo nacional: camisa amarela com gola e punhos verdes, calção azul cobalto com faixa branca e meias brancas.
O prêmio incluiu um estágio na redação do jornal, no Rio. Era um tempo em que esse tipo de trabalho ainda não era tratado como profissão.
Schlee nasceu e cresceu na linha da fronteira e simpatizava com o Uruguai, time que preferia acompanhar ao longo da vida. Ou seja: o homem que vestiu o Brasil de amarelo, para curar o trauma do Maracanaço, torcia justamente para a seleção que tinha causado o Maracanaço.
A estreia foi contra o Chile, em 1954
A camisa amarela estreou em 28 de fevereiro de 1954, no Estádio Nacional de Santiago, contra o Chile, diante de 25.085 pessoas. O Brasil venceu por 2 a 0, com os dois gols de Baltazar.
O jogo tem uma segunda camada histórica: foi a primeira partida de eliminatórias de Copa do Mundo da seleção brasileira. Até então as vagas eram distribuídas por outros critérios, sem torneio classificatório. A camisa nova e o formato novo de classificação estrearam juntos.
Meses depois, o amarelo apareceu pela primeira vez numa Copa, a de 1954, na Suíça.
O primeiro título não foi conquistado de amarelo
Aqui está a parte que quase toda retrospectiva erra. É comum ler que o Brasil ganhou a Copa de 1958 vestindo a camisa amarela e que foi ali que ela se consagrou. Não foi bem assim.
Na final contra a Suécia, em 29 de junho de 1958, os dois times mandavam de amarelo. O sorteio determinou que quem trocaria seria o Brasil. O uniforme reserva era branco, e ninguém no grupo queria voltar a jogar de branco oito anos depois de 1950.
A delegação improvisou. O roupeiro Francisco de Assis comprou camisas azuis comuns em lojas de Estocolmo, e os escudos foram descosturados das camisas amarelas e costurados nas azuis. Para acalmar os jogadores supersticiosos, o chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, lembrou que o azul era o manto de Nossa Senhora Aparecida.
O Brasil venceu por 5 a 2 e foi campeão do mundo pela primeira vez de azul. O uniforme improvisado às pressas virou o segundo uniforme mais icônico da seleção, e a camisa amarela só levantaria uma Copa em 1962.
Por que amarelo, e não verde
Com quatro cores obrigatórias, a pergunta é por que o amarelo ficou com o peito. A razão mais concreta é visual: o amarelo contrasta com o gramado, enquanto uma camisa predominantemente verde se confunde com o campo, sobretudo nas transmissões da época.
A explicação que costuma acompanhar essa pergunta, porém, é onde mora o erro mais repetido sobre o assunto.
Aquilo que se aprende na escola, que o verde da bandeira representa as florestas e o amarelo representa o ouro, é uma reinterpretação posterior. O decreto de 1822 não atribuiu significado nenhum às cores. Historiadores apontam que o verde vinha da Casa de Bragança, de dom Pedro I, e o amarelo da Casa de Habsburgo, de dona Maria Leopoldina. Depois da proclamação da República, em 1889, referência a casas imperiais virou constrangimento, e a leitura das florestas e do ouro foi difundida no lugar.
O que aconteceu com Aldyr Schlee
O autor da camisa não seguiu carreira em design. Schlee virou jornalista, escritor e tradutor, fez doutorado, fundou a faculdade de jornalismo da Universidade Católica de Pelotas e publicou mais de quinze livros, boa parte deles sobre a cultura da fronteira em que nasceu. Morreu em 15 de novembro de 2018, aos 83 anos, em Pelotas.
Ele nunca ganhou nada além do prêmio do concurso pelo desenho mais reproduzido do futebol brasileiro. Setenta anos depois, a camisa que ele rascunhou mais de trezentas vezes continua sendo vendida, copiada e vestida em todas as Copas que o Brasil disputa, e é reconhecida em qualquer lugar do mundo por gente que nunca ouviu falar de Jaguarão.
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