Granada / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A história completa da CBF: como surgiu, como funciona e as polêmicas da entidade que comanda o futebol brasileiro

A CBF nasceu em 1914, virou a entidade máxima do futebol do país em 1979 e acumulou títulos e escândalos. Entenda como ela funciona, o que organiza, seus presidentes e o FIFAGate.

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Redação Futemais
12 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • A CBF nasceu em 1914 como Federação Brasileira de Sports e virou entidade só de futebol em 1979.
  • É comandada pelas 27 federações estaduais, que concentram o maior peso de voto nas eleições.
  • Organiza o Brasileirão (Séries A a D), a Copa do Brasil, a Supercopa e todas as seleções.
  • Três presidentes seguidos (Teixeira, Marin e Del Nero) foram banidos, presos ou indiciados por corrupção.
  • Entre 2023 e 2025 viveu forte instabilidade, com Ednaldo Rodrigues afastado duas vezes e a eleição de Samir Xaud.

A Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, é a entidade que comanda o futebol no país: organiza os campeonatos nacionais, administra as seleções e representa o Brasil junto à FIFA e à CONMEBOL. É também uma das instituições mais poderosas e mais controversas do esporte brasileiro, com uma história que atravessa mais de um século e passa por títulos mundiais, disputas de poder e alguns dos maiores escândalos de corrupção da história do futebol. Este texto reconstrói, com base em fontes públicas, como a CBF surgiu, como ela funciona hoje e por que seu nome aparece com tanta frequência nas páginas policiais.

De 1914 a 1979: da Federação Brasileira de Sports à CBF

A entidade que deu origem à CBF nasceu em 8 de junho de 1914, com o nome de Federação Brasileira de Sports (FBS). Ao contrário do que o nome atual sugere, ela não cuidava só de futebol: foi criada para comandar o esporte brasileiro de forma geral, reunindo entidades majoritariamente do Rio de Janeiro e também dissidentes de São Paulo. Em 1916, a FBS deu lugar à Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que por décadas foi a entidade responsável por praticamente todas as modalidades olímpicas do país, e não apenas pela bola.

O nome que conhecemos hoje só apareceu muito depois. Em 24 de setembro de 1979, a CBD foi reestruturada e o futebol se desmembrou das demais modalidades, dando origem à Confederação Brasileira de Futebol. A mudança respondia a uma exigência da FIFA, que passou a cobrar que as entidades nacionais fossem dedicadas exclusivamente ao futebol. Vale um registro de contexto: mais do que um decreto isolado da FIFA, o desmembramento foi conduzido internamente, sob o presidente Heleno Nunes e o Ministério da Educação e Cultura, com as várias modalidades separadas em confederações próprias entre 1977 e 1979, já no período do regime militar.

💡 Curiosidade

Antes de 1979, quem cuidava do futebol brasileiro cuidava também de vôlei, basquete, atletismo e quase todo o esporte olímpico do país. A CBD era um guarda-chuva. Quando ela foi desmontada, cada esporte ganhou a própria confederação, e a CBF ficou só com a bola.

Heleno Nunes comandou a transição entre 1979 e 1980. Na sequência, Giulite Coutinho venceu a primeira eleição já sob o novo nome e presidiu a CBF de 1980 a 1986, período que inclui a Copa de 1982. Foi só ao fim desse ciclo que a CBF entrou na fase que marcaria sua imagem pelas décadas seguintes, a da concentração de poder em uma única figura. Do ponto de vista de filiação internacional, a continuidade é antiga: o Brasil é filiado à FIFA desde 1923 e foi um dos quatro países fundadores da CONMEBOL, em 1916, ao lado de Argentina, Chile e Uruguai, ainda que na época a entidade se chamasse CBD.

Por trás dessa continuidade há uma sucessão de nomes que costuma confundir. A mesma instituição foi, na ordem, Federação Brasileira de Sports (1914), Confederação Brasileira de Desportos (1916) e, finalmente, Confederação Brasileira de Futebol (1979). Quando o Brasil se filiou à FIFA, em 1923, e ajudou a fundar a CONMEBOL, em 1916, quem assinava era a CBD. A FIFA e a CONMEBOL tratam a CBF como sucessora natural dessas datas, e por isso a entidade celebra mais de um século de existência, ainda que o nome atual seja de 1979.

Vista panorâmica do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, palco histórico do futebol brasileiro
O Maracanã, no Rio de Janeiro, é um dos principais palcos das competições e das seleções administradas pela CBF. Imagem: Rodrigo Silveira Camargo / Wikimedia Commons, domínio público.

O que é a CBF e como ela funciona hoje

Juridicamente, a CBF é uma associação de direito privado, de caráter desportivo e sem finalidade lucrativa, com organização e funcionamento autônomos. A sede fica na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro (na Avenida Luís Carlos Prestes), ocupada desde maio de 2014. O centro de treinamento das seleções é a Granja Comary, em Teresópolis, também no Rio.

A estrutura de poder é federativa. A CBF é integrada pelas 27 federações estaduais (uma para cada estado, mais o Distrito Federal) e pelos clubes. São as federações que concentram o maior peso nas decisões. Na Assembleia Geral que elege o presidente, os votos são ponderados: cada uma das 27 federações vale três votos, cada clube da Série A vale dois e cada clube da Série B vale um. No total, são 141 votos, e as federações formam de longe o maior bloco, com 81 deles. A inclusão dos clubes da Série B no colégio eleitoral foi definida nas regras de 2022.

O presidente e os vice-presidentes são eleitos por essa assembleia para um mandato de quatro anos. Em novembro de 2024, os presidentes das 27 federações aprovaram por unanimidade uma mudança no estatuto que passou a permitir duas reeleições, ou seja, até três mandatos consecutivos, quando antes só era permitida uma. A CBF justificou a alteração como alinhamento aos estatutos da FIFA e da CONMEBOL. Na prática, a mudança ampliava o tempo possível de permanência no comando, permitindo que um mesmo presidente ficasse até doze anos à frente da entidade.

A disputa pelo cargo tem regras próprias. Para concorrer, cada chapa (candidato a presidente e vice) precisa reunir o apoio de, no mínimo, oito federações estaduais e cinco clubes. A votação na assembleia é secreta, e vence quem obtém a maioria simples dos votos ponderados. Como as federações concentram o maior peso, a articulação política com os presidentes estaduais costuma decidir a eleição bem antes do dia da votação, o que ajuda a explicar por que boa parte dos pleitos recentes teve chapa única.

💡 Curiosidade

Quando alguém fala que "os cartolas mandam na CBF", há uma base concreta nisso: são os presidentes das 27 federações estaduais que detêm o maior peso de voto nas eleições. Um candidato precisa do apoio deles muito mais do que da simpatia da torcida.

O que a CBF organiza

A CBF é a autoridade máxima do futebol nacional e organiza as competições de âmbito nacional. No masculino, isso inclui o Campeonato Brasileiro nas Séries A, B, C e D, a Copa do Brasil e a Supercopa, que desde 2024 se chama oficialmente Supercopa Rei, em homenagem a Pelé, e coloca frente a frente o campeão do Brasileirão e o da Copa do Brasil. Os campeonatos estaduais, vale lembrar, não são da CBF: ficam a cargo das federações de cada estado.

No feminino, a entidade organiza o Campeonato Brasileiro Feminino nas Séries A1, A2 e A3, além da Copa do Brasil e da Supercopa femininas. A CBF também administra todas as seleções brasileiras, masculina e feminina, incluindo as categorias de base (Sub-15, Sub-17 e Sub-20), e divulga a cada ano o calendário oficial do futebol brasileiro, coordenando as datas de competições nacionais, estaduais e das seleções. Para 2026, o calendário da base prevê crescimento de 601 para 711 jogos, com a estreia de uma Copa do Brasil Sub-15 e o retorno das Supercopas de base Sub-17 e Sub-20. A temporada de base abre já em fevereiro, com o Brasileirão Sub-20 e a Copa do Brasil Sub-17, num sinal de que a entidade tem tentado dar mais peso à formação de jogadores, historicamente a matéria-prima que abastece tanto os clubes brasileiros quanto o mercado europeu.

A era Ricardo Teixeira e o caso ISL

Nenhum nome se confunde tanto com a CBF quanto o de Ricardo Teixeira, que presidiu a entidade de 16 de janeiro de 1989 a 12 de março de 2012, um reinado de 23 anos. Genro do então presidente da FIFA, João Havelange, Teixeira construiu um poder quase absoluto sobre o futebol brasileiro, mas sua gestão terminou cercada de denúncias.

A mais grave envolveu a agência de marketing esportivo ISL. Um documento da Promotoria do cantão suíço de Zug, revelado em julho de 2012, apontou que Teixeira e o ex-sogro Havelange receberam cerca de 41 milhões de francos suíços em propinas ligadas a direitos de marketing da Copa do Mundo, pagas entre 1992 e 2000. A ação criminal suíça por esses pagamentos havia sido encerrada em maio de 2010, depois que os dois devolveram, respectivamente, 2,5 milhões e 500 mil francos, e porque parte das propinas, anteriores a 1995, já estava prescrita.

Teixeira renunciou à presidência da CBF em 12 de março de 2012, alegando motivos de saúde em meio às denúncias, e deixou também o comando do comitê organizador da Copa de 2014. Anos depois, o caso o alcançou de outra forma: em 29 de novembro de 2019, o Comitê de Ética da FIFA o baniu do futebol de forma vitalícia e o multou em 1 milhão de francos suíços, por aceitar subornos ligados a contratos de mídia e marketing de competições sul-americanas entre 2006 e 2012. O Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) manteve o banimento em setembro de 2021, citando os valores "extraordinariamente altos" das propinas.

O FIFAGate: Marin preso, Del Nero banido

Se o caso ISL manchou a era Teixeira, o episódio que expôs a CBF ao mundo foi o FIFAGate. Em 27 de maio de 2015, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), com o FBI e o IRS, revelou uma investigação por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e associação criminosa (racketeering). A denúncia inicial imputou 14 réus, entre dirigentes da FIFA e executivos de marketing esportivo, em esquemas de propina estimados em mais de 150 milhões de dólares, ligados a direitos de mídia e marketing de torneios das Américas.

Dois ex-presidentes da CBF estavam no centro do caso. José Maria Marin, que era vice na chapa de Teixeira e assumiu a entidade em 2012, primeiro de forma interina e depois em definitivo, presidindo a CBF até abril de 2015, foi preso naquele 27 de maio de 2015, ao amanhecer, no luxuoso Hotel Baur au Lac, em Zurique, a pedido da Justiça americana. Ex-governador de São Paulo, Marin foi extraditado, julgado e condenado nos Estados Unidos. Em agosto de 2018, a juíza Pamela Chen o sentenciou a quatro anos de prisão, multa de 1,2 milhão de dólares e confisco de mais de 3,3 milhões, tornando-o o primeiro dirigente condenado em julgamento no caso.

O sucessor de Marin, Marco Polo Del Nero, seguiu caminho diferente. Eleito em 2014 e empossado em 2015, ele foi indiciado pelo DOJ em dezembro de 2015, na segunda rodada do FIFAGate, pelas mesmas acusações de racketeering, fraude e lavagem. Como o Brasil não extradita seus nacionais, Del Nero nunca foi entregue aos Estados Unidos e passou a evitar viagens ao exterior para não ser preso. A punição veio pela via esportiva: em 27 de abril de 2018, a FIFA o baniu do futebol de forma vitalícia e o multou em 1 milhão de francos suíços, por receber propinas em contratos de mídia e marketing da Copa América, da Libertadores e da Copa do Brasil. O banimento foi confirmado pelo Comitê de Apelação da entidade em maio de 2019. Antes do banimento definitivo, Del Nero já havia sido suspenso por 90 dias pelo Comitê de Ética da FIFA, em dezembro de 2017.

Há um detalhe que resume bem a época. A atual sede da CBF, na Barra da Tijuca, foi inaugurada oficialmente em junho de 2014, com direito a corte de fita. Quem segurava a tesoura eram justamente José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, os dois dirigentes que, poucos anos depois, seriam presos e banidos do futebol. A imagem virou um símbolo involuntário do período em que a entidade combinava faturamento recorde e escândalos em série.

💡 Curiosidade

Três presidentes da CBF em sequência (Teixeira, Marin e Del Nero) terminaram banidos, presos ou indiciados por corrupção. É um dos motivos pelos quais o cargo, apesar do poder que concentra, virou sinônimo de instabilidade e desconfiança.

Instabilidade recente: a novela Ednaldo Rodrigues

A saída de Del Nero abriu um período conturbado. Rogério Caboclo, eleito em 2018 e empossado em abril de 2019, foi afastado em junho de 2021 depois que uma funcionária da entidade o acusou de assédio moral e sexual. O vice mais velho, Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, assumiu interinamente, e Caboclo acabou destituído de forma definitiva em fevereiro de 2022. Caboclo negou as acusações, e parte dos processos contra ele foi posteriormente arquivada pela Justiça.

Foi nesse vácuo que surgiu Ednaldo Rodrigues, eleito presidente em 23 de março de 2022, com mandato até 2026, após a CBF firmar um acordo (TAC) com o Ministério Público do Rio de Janeiro. O que veio depois foi uma das disputas judiciais mais longas da história recente da entidade. Em 7 de dezembro de 2023, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro afastou Ednaldo e nomeou como interventor José Perdiz de Jesus, então presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Menos de um mês depois, em 4 de janeiro de 2024, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu a decisão e o recolocou no cargo.

A trégua foi provisória. Em fevereiro de 2025, Gilmar Mendes homologou um acordo que reconhecia as assembleias de 2022 e parecia encerrar a briga. Mas, em 15 de maio de 2025, o Tribunal de Justiça do Rio afastou Ednaldo de novo, desta vez por suspeita de falsificação da assinatura do Coronel Nunes, que tem câncer cerebral diagnosticado desde 2018, em um documento que sustentava sua permanência. Um novo interventor, Fernando Sarney, foi designado para convocar eleições.

Dez dias depois, em 25 de maio de 2025, a CBF elegeu um novo presidente: Samir Xaud, médico de Roraima e ex-presidente da federação estadual, escolhido como chapa única com apoio de 25 das 27 federações, para um mandato até 2029. A eleição, porém, não foi consensual: vários clubes grandes boicotaram a votação, e Xaud assumiu com a missão declarada de reconstruir a credibilidade da entidade. Foi o desfecho, ao menos por ora, de quase dois anos de idas e vindas no comando da CBF.

O papel da CBF no futebol brasileiro e no mundo

Apesar da instabilidade política, a CBF administra o ativo esportivo mais valioso do país: a seleção brasileira masculina, maior vencedora da Copa do Mundo, com cinco títulos (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002). É essa marca que sustenta o peso econômico da entidade, movido por contratos de patrocínio, de material esportivo e de transmissão. O contrato de fornecimento de material, por exemplo, passou a prever, pela primeira vez, que a CBF receba royalties sobre a venda das camisas da seleção, além do licenciamento de produtos. Contratos como esse, somados aos direitos de transmissão dos campeonatos e aos patrocínios da seleção, fazem da CBF uma das confederações mais ricas do mundo, com orçamento que se sustenta em grande parte sobre a força comercial da camisa amarela.

No plano internacional, a CBF ocupa uma cadeira de influência na CONMEBOL e na FIFA, e sua voz pesa nas decisões do futebol sul-americano. No plano interno, ela é o centro de gravidade de todo o sistema: define calendário, organiza as principais competições, administra as seleções de base e responde pela relação do futebol brasileiro com o resto do mundo. É uma entidade que concentra poder, dinheiro e paixão em doses raras, o que ajuda a explicar tanto sua importância quanto a intensidade das disputas por seu comando.

Vale dimensionar o alcance dessa estrutura. Ao coordenar as quatro divisões nacionais masculinas, as três femininas, a Copa do Brasil, as categorias de base e o calendário de todas as seleções, a CBF organiza a rotina de centenas de clubes e milhares de atletas ao longo do ano. Cada data marcada, cada tabela divulgada e cada convocação passa, de alguma forma, pela entidade da Barra da Tijuca. Esse poder de arbitrar o calendário e distribuir receitas é, na prática, o que faz da presidência da CBF um dos cargos mais disputados do esporte nacional, muito além do prestígio de aparecer ao lado da taça.

Entender a CBF, no fim, é entender uma contradição brasileira: a instituição que organiza o esporte mais amado do país é também uma das que mais acumulou escândalos. As duas coisas convivem, e seguem convivendo, a cada temporada.

Fontes: CBF, Departamento de Justiça dos EUA, FIFA, CONMEBOL, Agência Brasil, CNN Brasil e ge.

Este conteúdo pode ter sido produzido com auxílio de inteligência artificial e passou por curadoria jornalística da redação Futemais.

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