Danilo Borges / Portal da Copa / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A história completa da FIFA: como surgiu, como funciona e os escândalos da entidade que governa o futebol mundial

A FIFA nasceu em Paris em 1904, criou a Copa do Mundo em 1930 e virou uma potência bilionária. Entenda sua estrutura, seus presidentes, o FIFAGate e o papel dela no futebol mundial.

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Redação Futemais
11 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • A FIFA foi fundada em 21 de maio de 1904, em Paris, por sete associações nacionais.
  • Criou a Copa do Mundo em 1930, no Uruguai, ideia do francês Jules Rimet.
  • Tem 211 associações membros, mais que os 193 Estados da ONU, e sede em Zurique.
  • O FIFAGate, em 2015, levou à prisão de dirigentes em Zurique e à queda de Sepp Blatter.
  • No ciclo 2019-2022 teve receita recorde de US$ 7,57 bilhões, puxada pela Copa do Catar.

A FIFA, sigla de Fédération Internationale de Football Association, é a entidade que governa o futebol no planeta. É ela que organiza a Copa do Mundo, define as regras do jogo em conjunto com outros órgãos, distribui bilhões de dólares e reúne mais países do que a própria Organização das Nações Unidas. Também é uma das instituições esportivas que mais protagonizaram escândalos de corrupção no século XXI. Este texto reconstrói, com base em fontes públicas, como a FIFA nasceu, como ela funciona, quem a comandou e por que seu nome esteve no centro de uma das maiores operações policiais já vistas no esporte.

De 1904 a 1930: a fundação e o nascimento da Copa

A FIFA foi fundada em 21 de maio de 1904, em Paris, nos fundos da sede de uma entidade esportiva francesa, na Rue Saint-Honoré. Sete associações nacionais assinaram a ata de criação: Bélgica, Dinamarca, França, Países Baixos, Espanha, Suécia e Suíça. A Alemanha manifestou adesão no mesmo dia, por telegrama, mas não é contada entre as fundadoras. A ideia era simples e ambiciosa: criar um órgão único para reger o futebol diante da explosão de jogos internacionais no início do século. Entre os objetivos declarados da entidade estavam expandir o esporte pelo mundo, torná-lo acessível a todos e defender a integridade do jogo e o fair play, princípios que a FIFA repete em seus documentos até hoje, ainda que sua história os tenha colocado à prova mais de uma vez.

Um detalhe curioso da fundação é que a Espanha, que ainda não tinha uma federação nacional, foi representada por um clube de Madri. A entidade que hoje se chama Real Madrid era, em 1904, o Madrid Football Club, e só recebeu o título "Real" em 1920.

A sede da FIFA mudou de país ao longo das primeiras décadas. Nascida em Paris, a administração passou por Amsterdã depois da Primeira Guerra Mundial e, no início dos anos 1930, fixou-se em Zurique, na Suíça, onde permanece até hoje. O prédio atual, a Casa da FIFA, foi inaugurado em 2006.

O grande salto veio com a Copa do Mundo. A primeira edição foi disputada em 1930, no Uruguai, de 13 a 30 de julho, com 13 seleções participantes, entre elas o Brasil. O principal idealizador do torneio foi o francês Jules Rimet, então presidente da FIFA, e em sua homenagem o troféu original passou a se chamar Troféu Jules Rimet, em 1946.

Daquela estreia modesta, com jogos concentrados em Montevidéu, a Copa não parou de crescer. O torneio passou de 13 seleções em 1930 para 16, depois 24, e chegou a 32 participantes, formato que marcou as edições mais recentes. Em 2026, dará outro salto, para 48 seleções. A escalada acompanha a própria transformação da FIFA, de uma associação amadora de dirigentes europeus para a organização que administra o evento esportivo de maior audiência do planeta.

💡 Curiosidade

O Brasil é a única seleção que disputou todas as edições da Copa do Mundo masculina, sem nunca faltar nem depender de repescagem. De 1930 em diante, não houve um único Mundial sem a camisa canarinho em campo.

O que é a FIFA e como ela funciona

A FIFA é uma associação de direito privado sediada na Suíça, e sua estrutura de poder tem dois centros. O primeiro é o Congresso da FIFA, o órgão supremo, que reúne todas as associações membros. Nele vale a regra de uma associação, um voto: cada federação nacional tem exatamente um voto, independentemente do tamanho do país ou da força de seu futebol. É o Congresso que altera os estatutos, aprova as contas, elege o presidente, admite ou expulsa membros e, desde as reformas de 2016, decide as sedes das Copas do Mundo.

Esse desenho tem uma consequência importante. Como o voto de uma federação pequena vale tanto quanto o de uma potência do futebol, conquistar o apoio de dezenas de associações menores se tornou a chave do poder dentro da FIFA. Foi esse mesmo sistema que, segundo os investigadores do FIFAGate, criou o terreno para a compra de votos, tanto em eleições de dirigentes quanto na escolha de sedes de Copas.

O segundo centro é o Conselho da FIFA, órgão estratégico que toma as decisões entre as reuniões do Congresso. Ele tem 37 membros: o presidente, eleito pelo Congresso, mais oito vice-presidentes e outros 28 conselheiros escolhidos pelas associações, todos para mandatos de quatro anos. O Conselho substituiu, em 2016, o antigo Comitê Executivo, dentro do pacote de reformas adotado depois do escândalo de corrupção de 2015. O dia a dia administrativo fica a cargo da Secretaria-Geral, comandada por um secretário-geral que funciona como o executivo-chefe da entidade, responsável por organizar as competições, gerir as finanças e executar os contratos comerciais. Foi justamente a concentração de poder no antigo Comitê Executivo, sem contrapesos suficientes, que as reformas de 2016 tentaram corrigir, ao criar o Conselho, separar funções de gestão e supervisão e transferir ao Congresso a decisão sobre as sedes das Copas.

Interior da sede da FIFA (Casa da FIFA), em Zurique, na Suíça
A Casa da FIFA, sede da entidade em Zurique, na Suíça, inaugurada em 2006. Imagem: Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Abaixo da FIFA, o mundo do futebol se divide em seis confederações continentais: a UEFA, na Europa, a CONMEBOL, na América do Sul, a CONCACAF, na América do Norte, Central e Caribe, a CAF, na África, a AFC, na Ásia, e a OFC, na Oceania. Uma federação nacional só pode entrar na FIFA se for filiada a uma dessas seis. Em número de membros, a UEFA lidera com 55 associações, seguida pela CAF, com 54, a AFC, com 46, a CONCACAF, com 35, a OFC, com 11, e a CONMEBOL, com 10.

💡 Curiosidade

A FIFA tem 211 associações membros, mais do que os 193 Estados que compõem a ONU. Isso acontece porque ela reconhece entidades que não são países soberanos, como Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte separadamente, ou Hong Kong e Macau, além da China.

Os presidentes: de Guérin a Infantino

O primeiro presidente da FIFA foi o francês Robert Guérin, eleito no congresso inaugural de 1904 e no cargo até 1906. Seguiram-se o inglês Daniel Burley Woolfall, que morreu no cargo em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial, período em que a FIFA quase se desfez, e o já citado Jules Rimet, cujo mandato de 1921 a 1954 foi o mais longo da história, com 33 anos. Não por acaso, foi Rimet quem reergueu e deu escala à entidade no entreguerras. Depois de Rimet vieram o belga Rodolphe Seeldrayers e o inglês Arthur Drewry, ambos falecidos no cargo, e o também inglês Stanley Rous, que presidiu a entidade de 1961 a 1974.

Foi em 11 de junho de 1974, no Congresso de Frankfurt, que a FIFA teve seu primeiro presidente não europeu: o brasileiro João Havelange, que derrotou Rous na eleição. Havelange comandou a entidade por 24 anos, até 1998, período em que a FIFA se transformou em uma potência comercial, com a Copa do Mundo virando um dos maiores eventos do planeta. Foi na sua gestão que a entidade passou a fechar os grandes contratos de patrocínio e de televisão que a tornariam bilionária, um modelo que seus sucessores apenas ampliaram. Seu sucessor, o suíço Joseph Blatter, o Sepp Blatter, assumiu em 1998 e ficaria no comando por dezessete anos, até o escândalo de 2015. Foi sob Blatter que a Copa do Mundo saiu de sua zona histórica de conforto e chegou pela primeira vez à Ásia, em 2002, com Japão e Coreia do Sul, e à África, em 2010, com a África do Sul. Ao mesmo tempo, sua gestão acumulou denúncias que acabariam explodindo de uma vez só.

Desde 2016, a FIFA é presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, eleito em um congresso extraordinário após a queda de Blatter. Infantino foi reeleito em 2019 e reconduzido, sem oposição, para o mandato de 2023 a 2027.

O FIFAGate: 2015 e o terremoto de Zurique

Nenhum episódio marcou tanto a FIFA quanto o FIFAGate. Na manhã de 27 de maio de 2015, poucos dias antes do congresso anual da entidade, a polícia suíça prendeu sete dirigentes da FIFA no Hotel Baur au Lac, em Zurique, a pedido da Justiça dos Estados Unidos. As imagens de cartolas sendo retirados do hotel de luxo com lençóis cobrindo o rosto correram o mundo. As prisões visavam a extradição para os Estados Unidos, e o Baur au Lac, um dos endereços mais tradicionais de Zurique, virou de uma hora para outra o símbolo do colapso da velha cúpula do futebol mundial.

Naquele mesmo dia, o Departamento de Justiça americano (DOJ), em investigação conduzida pelo FBI e pela divisão criminal do IRS, anunciou uma denúncia de 47 acusações contra 14 réus, sendo nove dirigentes da FIFA e cinco executivos de marketing esportivo. As acusações eram de organização criminosa (racketeering), fraude eletrônica e lavagem de dinheiro, em um esquema descrito como de 24 anos. Segundo o DOJ, os envolvidos pagaram ou concordaram em pagar mais de 150 milhões de dólares em propinas para obter direitos de mídia e marketing de torneios de futebol, sobretudo nas Américas.

A denúncia foi aberta no tribunal federal do Brooklyn, em Nova York, e não parou ali. Em dezembro de 2015, uma segunda leva de acusações somou mais 16 dirigentes ao caso, ampliando o alcance da investigação para a América do Sul e do Norte. Vários ex-dirigentes brasileiros da CBF apareceram no centro do escândalo, história que contamos em detalhe no texto sobre a CBF.

O escândalo derrubou Blatter. Reeleito para um quinto mandato em 29 de maio de 2015, apenas dois dias após as prisões, ele anunciou sua renúncia em 2 de junho, sob forte pressão. Em outubro daquele ano, foi suspenso por 90 dias pelo Comitê de Ética da própria FIFA, e o camaronês Issa Hayatou assumiu como presidente interino até a eleição de Infantino, em fevereiro de 2016.

💡 Curiosidade

A investigação do FIFAGate não partiu da Europa nem da própria FIFA, e sim dos Estados Unidos, um país onde o futebol está longe de ser o esporte mais popular. Foi o Departamento de Justiça americano, usando leis contra o crime organizado, que expôs o esquema global de propinas.

Rússia 2018, Catar 2022 e o julgamento de Blatter

Um dos capítulos mais delicados envolveu a escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022, decidida em votação do Comitê Executivo em dezembro de 2010, que deu os torneios à Rússia e ao Catar. Em abril de 2020, uma denúncia complementar do DOJ afirmou, pela primeira vez, que houve pagamento de propinas a dirigentes para votar nesses dois países. Segundo os promotores, Jack Warner, ex-presidente da CONCACAF e vice da FIFA, recebeu cerca de 5 milhões de dólares para votar na Rússia, e dirigentes sul-americanos, entre eles o paraguaio Nicolás Leoz e o brasileiro Ricardo Teixeira, teriam recebido para votar no Catar. Vale registrar: tanto a Rússia quanto o Catar negaram formalmente as acusações, e uma denúncia não equivale a condenação.

A queda de Blatter teve ainda um desdobramento próprio. Em 21 de dezembro de 2015, o Comitê de Ética da FIFA baniu Blatter e o francês Michel Platini, então presidente da UEFA e cotado para suceder Blatter, por oito anos. O motivo foi um pagamento de 2 milhões de francos suíços feito pela FIFA a Platini em 2011, considerado irregular. A pena foi depois reduzida para seis anos. Anos mais tarde, em 8 de julho de 2022, um tribunal penal suíço, em Bellinzona, absolveu Blatter e Platini das acusações de fraude, por falta de provas suficientes. As duas coisas convivem no registro histórico: a punição administrativa da FIFA e a absolvição na Justiça criminal.

O peso econômico e o papel no futebol mundial

Apesar dos escândalos, a FIFA se manteve como uma máquina financeira de proporções raras. No ciclo 2019 a 2022, encerrado com a Copa do Catar, a entidade registrou receita recorde de 7,57 bilhões de dólares. A maior fatia veio dos direitos de transmissão de TV, que renderam cerca de 3,43 bilhões, aproximadamente 45% do total. Os direitos de marketing e patrocínio somaram outros 1,8 bilhão, enquanto o licenciamento de produtos rendeu 769 milhões e a hospitalidade e a bilheteria bateram recorde, com 949 milhões no ciclo. E há uma concentração impressionante em um único evento: a venda de direitos ligados à Copa do Catar 2022 representou cerca de 83% de toda a receita do ciclo.

Esses números explicam por que a Copa do Mundo é o coração do negócio. É o torneio que sustenta o orçamento da entidade e financia boa parte do futebol nos países membros, por meio de programas de desenvolvimento. A FIFA também organiza a Copa do Mundo feminina, disputada desde 1991 e em franca expansão, além de competições de base, o ranking mundial de seleções e a premiação de melhores do mundo. Parte relevante do que arrecada é redistribuída às 211 associações membros, o que dá à entidade um poder de influência que vai muito além do calendário: federações pequenas dependem desses repasses para existir, o que ajuda a explicar a lealdade política que gravita em torno da presidência.

Para 2026, a entidade prepara a maior Copa da história, com o formato ampliado de 48 seleções, sediada nos Estados Unidos, no México e no Canadá. A projeção da própria entidade é de que o ciclo 2023-2026 supere com folga o anterior, ultrapassando a marca dos 11 bilhões de dólares. É um sinal de para onde a FIFA aponta: mais jogos, mais países, mais receita. A entidade que nasceu em uma sala nos fundos de um prédio parisiense, em 1904, com sete associações, hoje comanda um esporte que mobiliza bilhões de pessoas e reúne mais bandeiras do que qualquer organização internacional.

Entender a FIFA é entender essa dupla natureza. De um lado, a instituição que universalizou o futebol e criou o maior evento esportivo do planeta. De outro, uma organização que precisou de uma operação policial estrangeira para expor décadas de corrupção interna. As duas histórias são a mesma, e seguem sendo contadas a cada quatro anos, quando a bola volta a rolar em uma final de Copa do Mundo.

Fontes: FIFA, Departamento de Justiça dos EUA, Encyclopaedia Britannica, Reuters, BBC e Al Jazeera.

Este conteúdo pode ter sido produzido com auxílio de inteligência artificial e passou por curadoria jornalística da redação Futemais.

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