Oldelpaso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

A história do hino da Champions League, da coroação de 1727 ao maior palco do futebol

O hino da Champions League foi composto por Tony Britten em 1992, adaptando 'Zadok the Priest', que Händel escreveu em 1727 para a coroação de George II. Conheça a história completa.

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Redação Futemais
5 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • O hino da Champions League foi composto em 1992 pelo inglês Tony Britten, a pedido da Uefa.
  • A peça adapta 'Zadok the Priest', de Händel, escrita em 1727 para a coroação do rei George II.
  • A gravação é da Royal Philharmonic Orchestra, com o coro da Academy of St Martin in the Fields.
  • A letra é cantada nos três idiomas oficiais da Uefa: inglês, francês e alemão.
  • Britten recebe royalties até hoje, e a Uefa detém a propriedade da obra.

Poucos sons são tão reconhecíveis no esporte quanto os primeiros acordes que antecedem uma partida da Liga dos Campeões da Europa. O hino da Champions League toca antes de cada jogo, na abertura das transmissões e na entrega do troféu. O que quase ninguém percebe é que a peça não nasceu no futebol: ela é uma adaptação de uma música escrita em 1727 para a coroação de um rei inglês.

O hino foi composto em 1992 pelo músico inglês Tony Britten, por encomenda da Uefa. Naquele ano, a entidade reformulou a antiga Copa dos Campeões da Europa e a rebatizou de Uefa Champions League. A agência TEAM, parceira comercial da Uefa, havia recebido em 1991 a tarefa de criar uma identidade para a competição reformulada. Dessa encomenda saíram três elementos que seguem intactos mais de trinta anos depois: as cores da casa, o logotipo da bola formada por estrelas, e o hino. Oficialmente, a obra se chama apenas "Champions League".

Uma coroação de 1727 no meio do gramado

Britten não partiu do zero. Ele adaptou Zadok the Priest, peça de Georg Friedrich Händel escrita em 1727 para a coroação do rei George II da Grã-Bretanha. É uma das quatro peças de coroação que Händel recebeu como encomenda naquele ano, e a única que foi executada em todas as coroações britânicas desde então, sempre antes da unção do soberano.

O texto que ela musica não é laico. Vem da tradução de uma antífona baseada no relato bíblico da unção de Salomão pelo sacerdote Zadoque, no Primeiro Livro dos Reis. É daí que vem a sensação de cerimônia que a música carrega mesmo quando toca em um estádio, longe de qualquer catedral.

Retrato de Georg Friedrich Händel, compositor de Zadok the Priest, obra que originou o hino da Champions League
Georg Friedrich Händel, autor de "Zadok the Priest" (1727), peça adaptada por Tony Britten para criar o hino da Champions League. Retrato atribuído a Balthasar Denner. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

A escolha faz sentido do ponto de vista narrativo. A Uefa queria uma abertura que sinalizasse que aquele não era um jogo qualquer, e Händel já tinha resolvido esse problema dois séculos e meio antes, para um público que assistia à sagração de um monarca. Britten contou que o trabalho de adaptação levou poucos dias.

💡 Curiosidade

Händel nasceu em Halle, no território que hoje é a Alemanha, em 1685, e se naturalizou súdito britânico em 1727. Ou seja, ele virou britânico no mesmo ano em que escreveu a música da coroação do rei britânico. Um estrangeiro recém-chegado assinou a peça mais cerimonial da monarquia inglesa.

Quem toca, quem canta e o que a letra diz

A gravação que vai ao ar antes das partidas é executada pela Royal Philharmonic Orchestra, com o coro da Academy of St Martin in the Fields. A versão completa tem cerca de três minutos, com duas estrofes curtas e um refrão.

A letra é curta e cantada nos três idiomas oficiais da Uefa: inglês, francês e alemão. O conteúdo é essencialmente celebratório, sem narrativa nem personagens. Os versos tratam a competição como o grande evento do continente e saúdam os clubes reunidos ali como os melhores da Europa, os campeões de seus países. O refrão, o trecho mais reconhecível, é uma sequência de exclamações curtas, uma em cada idioma, que proclamam os times como os melhores e os mestres do jogo. A função da letra é coroar, não contar uma história. Talvez por isso quase nenhum torcedor saiba os versos de cor, mas praticamente todos reconheçam o momento em que as vozes se sobrepõem. A música funciona, no fim, menos como canção e mais como um aviso solene de que a partida vai começar. Quem quiser conferir os versos na íntegra, nos três idiomas, encontra a letra oficial no site da Uefa.

O hino não é usado só na entrada dos times. Ele abre e encerra as transmissões de televisão e acompanha a cerimônia de entrega do troféu. A partir da temporada 2024/25, dentro de uma atualização da identidade visual da competição, a peça foi levemente revisada pelo próprio Britten e regravada, e passou a existir também uma versão mais acelerada, tocada no momento em que o capitão levanta a taça.

💡 Curiosidade

"Zadok the Priest" nunca saiu de cena. Desde a coroação de George II, em 1727, ela foi executada em todas as coroações de monarcas britânicos, incluindo a de Charles III, em 2023. A mesma música que anuncia um rei anuncia também um Real Madrid contra o Bayern.

O compositor que ganha royalties até hoje

Tony Britten era um músico conhecido no meio, mas sem nenhuma ligação particular com o futebol. A composição do hino não lhe rendeu apenas um cachê fechado: a Uefa detém a propriedade da obra, e Britten recebe royalties sempre que ela é usada comercialmente. Como o hino toca em centenas de partidas por temporada, em transmissões para mais de duzentos territórios, o encargo de poucos dias virou uma das encomendas mais duradouras da carreira dele.

A peça também ganhou vida fora do estádio. Andrea Bocelli a interpretou em finais da competição, entre elas as de 1996, 2009, 2016 e 2017. O duo 2Cellos fez uma versão instrumental executada na final de 2018. Nenhuma dessas leituras substituiu a original: a gravação da Royal Philharmonic continua sendo a que abre os jogos, e é ela que o torcedor reconhece nos primeiros dois segundos.

Trinta e poucos anos depois, o resultado é um caso raro de música institucional que virou patrimônio afetivo. O torcedor não associa aqueles compassos a uma marca, associa a uma noite específica, ao time entrando em campo, ao volume do estádio subindo. Foi exatamente o que a Uefa pediu em 1991, ainda que por um caminho improvável, que passa por um compositor alemão naturalizado inglês, uma coroação do século XVIII e um texto sobre a unção de um rei bíblico. O futebol, afinal, sempre soube pegar emprestado o que funciona.

Fontes: UEFA, Wikipedia, Zadok the Priest e Classic FM.

Este conteúdo pode ter sido produzido com auxílio de inteligência artificial e passou por curadoria jornalística da redação Futemais.

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