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A convulsão de Ronaldo Fenômeno na final de 98: a cronologia completa de um mistério que já dura quase três décadas

Veja hora a hora o que se sabe sobre a convulsão de Ronaldo antes da final da Copa de 1998 e o que ele diz sobre o episódio hoje.

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Redação Futemais
5 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • Horas antes da final da Copa de 1998, Ronaldo sofreu uma convulsão na concentração da seleção.
  • A crise durou cerca de 40 segundos, e ele levou cerca de 4 minutos para recobrar a consciência.
  • Exames médicos não identificaram uma causa oficial até hoje, e ele nunca teve outro episódio depois.
  • Décadas depois, Ronaldo passou a associar o caso a um quadro de estresse extremo e falta de apoio psicológico.

Poucas histórias no futebol resistem tão bem ao tempo quanto a convulsão sofrida por Ronaldo Fenômeno horas antes da final da Copa do Mundo de 1998. Passados quase trinta anos, o episódio segue sendo tratado como um dos maiores mistérios médicos e esportivos já vividos por um atleta em atividade, em parte porque nunca houve um diagnóstico oficial definitivo, e em parte porque o próprio Ronaldo só se sentiu à vontade para falar abertamente sobre o assunto muitos anos depois, já associando o caso a temas como estresse extremo e saúde mental, algo raramente discutido no futebol daquela época.

A tarde de 12 de julho de 1998, minuto a minuto

A concentração da seleção brasileira ficava no Château de Grande Romaine, em Lesigny, na região metropolitana de Paris. Depois do almoço daquele domingo, Ronaldo foi ao quarto que dividia com Roberto Carlos, cortou o cabelo, tomou banho e, ao se sentar na cama, começou a convulsionar. O próprio Ronaldo, anos depois, relataria não guardar nenhuma lembrança do momento em si: "Cortei cabelo, tomei banho, no que sentei na cama, comecei a ter a convulsão, daí não lembro mais."

Roberto Carlos, que estava no quarto, foi quem primeiro percebeu a crise e pediu socorro. Edmundo, hospedado em outro quarto ao lado de Doriva, ouviu a agitação, correu até o local e chegou a tempo de presenciar parte do episódio. Ele descreveria a cena décadas depois em detalhes: "Levantei, olho e vejo o Ronaldo tendo a convulsão... Roxo, língua virada, bufando." Diante da gravidade da cena, Leonardo, outro companheiro de seleção presente, chegou a temer pela vida do atacante. A crise durou cerca de 40 segundos, e Ronaldo levou por volta de 4 minutos para recobrar a consciência, já cercado por jogadores e pelo médico da seleção, o Dr. Lidio Toledo.

Dali, ele foi levado a uma clínica em Les Lilas, subúrbio de Paris, onde passou por tomografia e eletroencefalograma. Já era, portanto, tarde da tarde quando o técnico Mário Zagallo, diante da incerteza sobre a condição do seu principal atacante, decidiu escalar Edmundo em seu lugar. Por volta de 70 minutos antes do apito inicial, essa foi a escalação oficialmente entregue à Fifa, sem o nome de Ronaldo.

A reviravolta de última hora

Pouco depois, Ronaldo chegou ao Stade de France já com os resultados dos exames em mãos, todos negativos, e foi direto procurar Zagallo para pedir para jogar. Segundo relato do próprio atacante à revista britânica FourFourTwo, ele disse ao técnico: "Eu estou bem. Não estou sentindo nada. Aqui estão os exames e está tudo bem. Quero jogar." Cerca de meia hora depois da primeira súmula, uma segunda foi entregue à Fifa, reincluindo seu nome na escalação titular. O jogo começou por volta das 21h, horário local, e terminou em 3 a 0 para a França.

O médico da seleção, Dr. Lidio Toledo, resumiria o quadro clínico anos depois: "O Ronaldo teve uma crise convulsiva, que até hoje não sabemos qual foi o motivo." Sobre a liberação para jogar, foi direto: "Ele foi vetado por mim até voltar da clínica em Paris, após uma série imensa de exames, e deu tudo negativo... Ele estava clinicamente liberado, não sentia absolutamente nada e pediu para jogar. Qual médico iria vetá-lo?" Ele reconheceu ainda o peso daquela decisão: "Se eu cortasse o Ronaldo daquela final e o Brasil perdesse a Copa, hoje eu estaria morando na Sibéria."

Vale registrar que a liberação não foi unânime dentro da própria comissão médica. Anos depois, o outro médico da CBF na época, Joaquim da Mata, revelou ao jornal O Estado de S. Paulo que era contra escalar Ronaldo naquela final, mostrando que a decisão, tomada sob enorme pressão e pouco tempo, dividiu opiniões mesmo entre quem estava mais próximo do caso.

💡 Curiosidade

Apesar da gravidade da crise, os exames realizados em Paris descartaram epilepsia, e Ronaldo nunca voltou a ter outro episódio convulsivo ao longo do restante de sua carreira, o que reforça a hipótese de um evento pontual, ligado a um contexto extremo de estresse, e não a uma condição neurológica crônica.

O que Ronaldo diz sobre o episódio hoje

Por muitos anos, Ronaldo tratou o assunto com reserva em entrevistas. Isso mudou de forma mais clara a partir da década de 2020, quando ele passou a associar abertamente o episódio a um quadro de estresse extremo e à ausência de qualquer suporte psicológico durante aquela Copa. Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, em outubro de 2022, para divulgar o documentário "Ronaldo, o Fenômeno", ele resumiu assim: "A única coisa que eu posso atrelar a uma convulsão no dia da final da Copa do Mundo é realmente esse estresse, um estresse muito alto, sob pressão e sem nenhum tipo de preparo."

Meses depois, em participação no podcast Podpah, ele foi ainda mais direto sobre o que poderia ter sido diferente: "Talvez o episódio de 98 não tivesse acontecido se tivesse um tratamento e um acompanhamento psicológico." E, em entrevista ao programa Domingão com Huck, já resumiu o contexto vivido naquela Copa como insustentável: "Era uma panela de pressão gigante. Já naquela época, eu sentia falta de um apoio psicológico." Mais recentemente, ao participar do podcast Denilson Show, ele reconheceu a própria coragem de ter entrado em campo horas depois de uma crise daquela gravidade: "Eu acho que eu fui muito corajoso naquele momento ali, depois de ter tido uma convulsão."

Ao longo dos anos, também circulou uma teoria alternativa, levantada pelo jornalista Jorge Kajuru, associando a crise a uma aplicação de lidocaína, um anti-inflamatório, que teria sido a oitava infiltração aplicada em Ronaldo em apenas 32 dias antes da final. A hipótese foi negada pela CBF na época e nunca teve confirmação médica independente, permanecendo como especulação, e não como fato estabelecido. Vale lembrar que o episódio médico é distinto das teorias de que a final teria sido, de alguma forma, arranjada. Sobre isso, e sobre a CPI que a suspeita de pressão da patrocinadora chegou a gerar no Congresso, temos uma reportagem própria explicando o que é fato e o que é teoria na polêmica da Copa de 98.

Um episódio que virou documentário

O caso é hoje tema central do documentário "Ronaldo, o Fenômeno, a ascensão, a queda e a redenção", produzido pela Zoom Sports em parceria com a DAZN Studios e disponível no Globoplay, com depoimentos de nomes como Roberto Carlos, Zinedine Zidane, Romário e o técnico Felipão. Mais do que reabrir a discussão sobre culpados ou teorias, a produção ajudou a consolidar a leitura que prevalece hoje sobre o episódio: não como um mistério sem explicação, mas como um retrato precoce, e brutal, dos limites que o corpo e a mente de um atleta podem alcançar sob pressão extrema, décadas antes de o futebol sequer começar a falar abertamente sobre saúde mental.

Com informações de ESPN e Gazeta Digital.

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