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A Copa de 98 foi roubada para a França? O que é fato e o que é teoria na polêmica final

Relembramos a final da Copa de 1998, a convulsão de Ronaldo horas antes do jogo e as teorias que cercam a derrota do Brasil.

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Redação Futemais
5 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • O Brasil perdeu a final da Copa de 1998 por 3 a 0 para a França, com dois gols de cabeça de Zidane.
  • Horas antes do jogo, Ronaldo sofreu uma convulsão na concentração da seleção, em Paris.
  • Uma teoria de que a Nike pressionou a escalação de Ronaldo gerou uma CPI no Congresso brasileiro.
  • A CPI não comprovou a interferência da marca, e o próprio Ronaldo chama a teoria de palhaçada.

Em 12 de julho de 1998, o Brasil entrou em campo no Stade de France como favorito para conquistar seu quinto título mundial. Saiu de campo derrotado por 3 a 0 para a França, anfitriã e estreante em finais de Copa do Mundo. O resultado, por si só, já seria surpreendente. Mas o que transformou aquela noite em um dos maiores enigmas da história do futebol não foi apenas o placar: foi o que aconteceu horas antes da bola rolar, quando Ronaldo, a maior estrela da equipe, sofreu um mal súbito na concentração da seleção e, ainda assim, acabou em campo.

Na tarde daquele domingo, na concentração da seleção em Lesigny, na região metropolitana de Paris, Ronaldo teve uma convulsão. O episódio foi presenciado de perto por companheiros de equipe, e a notícia se espalhou rapidamente pelo grupo. Levado a exames em uma clínica parisiense, ele foi submetido a uma bateria de testes que, segundo o próprio médico da seleção, o Dr. Lidio Toledo, deram todos negativos. Ainda assim, o susto foi suficiente para que o departamento médico, a princípio, vetasse sua presença em campo.

A decisão chegou a se refletir na súmula oficial: cerca de 70 minutos antes do apito inicial, o técnico Mário Zagallo entregou à Fifa a escalação sem o nome de Ronaldo, com Edmundo em seu lugar. Só depois de retornar da clínica com os exames em mãos, e de pedir insistentemente para jogar, é que uma segunda súmula foi enviada, cerca de meia hora mais tarde, reincluindo o atacante. "Ele estava clinicamente liberado, não sentia absolutamente nada e pediu para jogar", relataria Lidio Toledo anos depois, justificando por que a comissão médica não insistiu no veto. "Qual médico iria vetá-lo? Se eu cortasse o Ronaldo daquela final e o Brasil perdesse a Copa, hoje eu estaria morando na Sibéria."

O jogo em si, e a atuação de um Ronaldo diminuído

Ronaldo entrou em campo e disputou os noventa minutos, mas em ritmo visivelmente abaixo do habitual. Do outro lado, a França construiu uma atuação histórica em cima de um único jogador: Zinedine Zidane. Ele marcou duas vezes de cabeça, aos 27 e aos 45 minutos do primeiro tempo, ambas em cobranças de escanteio, tornando-se o único jogador da história a marcar dois gols de cabeça em uma final de Copa do Mundo. Emmanuel Petit fechou a contagem já nos acréscimos do segundo tempo, após jogada de Patrick Vieira, consolidando o 3 a 0 que projetou a França ao seu primeiro título mundial.

Diante de uma seleção brasileira claramente abalada e de um resultado tão discrepante para os favoritos, não demorou para que teorias alternativas começassem a circular, buscando uma explicação que fosse além do simples desempenho ruim em campo.

A teoria da pressão da Nike e a CPI que ela gerou

A CBF mantinha, à época, um contrato milionário com a Nike, avaliado em cerca de 160 milhões de dólares, e a mesma marca patrocinava individualmente Ronaldo. A combinação de interesses levantou a suspeita de que a fabricante teria pressionado a comissão técnica a escalar seu principal garoto-propaganda, mesmo debilitado, para preservar a imagem do atleta e o valor comercial do contrato.

A hipótese ganhou tamanha repercussão que motivou a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional, entre 1999 e 2001, reunindo depoimentos de 125 pessoas ao longo de 237 horas de audiências, entre elas o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, o técnico Zagallo, o próprio Ronaldo, além de nomes como Careca, Wanderley Luxemburgo, João Havelange e Pelé. O relatório final, de 800 páginas, chegou a pedir o indiciamento de Ricardo Teixeira e outras 33 pessoas por diferentes irregularidades ligadas ao contrato e à gestão da entidade. Mesmo assim, a CPI da Câmara terminou em 2001 sem uma votação final que desse encaminhamento efetivo às conclusões do relatório, um desfecho popularmente descrito como ter "terminado em pizza". Em nenhum momento a investigação comprovou que a Nike determinou, de fato, a escalação de Ronaldo naquela final. O próprio Zagallo sempre negou qualquer interferência externa na decisão. Os bastidores dessa investigação, que reuniu nomes como Ricardo Teixeira e Pelé, têm uma reportagem própria: veja como a final de 98 parou no Congresso Nacional.

Outras versões mais extremas, como a de que o Brasil teria deliberadamente "vendido" o título para a França, circularam na época e ainda reaparecem esporadicamente, mas nunca tiveram qualquer evidência factual associada, sendo tratadas por veículos especializados como pura fantasia.

💡 Curiosidade

A CPI da Nike não investigou apenas o episódio da final de 98: o relatório final de 800 páginas também levantou suspeitas sobre cláusulas do contrato entre CBF e Nike que davam à marca influência sobre calendário de amistosos e outras decisões da seleção, num escopo bem mais amplo do que a escalação de um único jogador em um único jogo.

O que Ronaldo diz sobre ter jogado mesmo assim

Ao longo dos anos, o próprio Ronaldo se tornou a fonte mais direta sobre o episódio, e sua versão sempre destacou que a decisão de entrar em campo foi dele, não de terceiros. Em entrevista à revista britânica FourFourTwo, ele contou o que disse a Zagallo ao chegar ao estádio: "Eu estou bem. Não estou sentindo nada. Aqui estão os exames e está tudo bem. Quero jogar." E foi ainda mais enfático sobre quem tomou a decisão final: "Eu não dei alternativa a ele. Ele não teve escolha que não aceitar minha decisão."

Anos depois, já mais aberto sobre o assunto, Ronaldo reconheceu o impacto que aquele estado debilitado pode ter tido sobre a equipe como um todo. "Talvez eu tenha afetado o time todo, porque minha convulsão certamente foi algo assustador", admitiu. E, num podcast em 2021, foi direto ao classificar as teorias conspiratórias que cercam o episódio: "Foi horrível. Um absurdo. Diziam que vendemos a Copa para o governo francês, que a Nike fez sei lá o quê com a Adidas." Ele resumiu o conjunto de especulações com uma única palavra: "palhaçada".

O que é fato e o que segue sendo teoria

Reunindo o que existe de mais consistente sobre aquele 12 de julho de 1998: é fato que Ronaldo sofreu uma convulsão horas antes da partida, que a súmula oficial foi alterada duas vezes, que nenhuma causa médica definitiva para a crise foi identificada até hoje, que ele jogou em ritmo abaixo do normal e que a França venceu com dois gols de Zidane e um de Petit. É teoria, investigada oficialmente pelo Congresso brasileiro e nunca comprovada, que a Nike teria pressionado a escalação do atacante. E é pura especulação, sem qualquer lastro factual, a ideia de que o resultado tenha sido combinado ou vendido.

A versão mais sustentada por todos os protagonistas diretamente envolvidos, o próprio Ronaldo, o médico Lidio Toledo e os companheiros de equipe que presenciaram o momento, é a de um episódio de saúde real, vivido sob um nível extremo de estresse, e não de um resultado arranjado por interesses comerciais. Para quem quiser entender em detalhes o que se sabe sobre a crise em si, minuto a minuto, vale a leitura da nossa cronologia completa da convulsão de Ronaldo na final de 98.

Com informações de ESPN e Metrópoles.

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