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A CPI da Nike: como a final de 98 parou no Congresso Nacional

Entenda como o contrato entre CBF e Nike virou uma CPI de dois anos no Congresso, com 125 depoentes, e por que terminou sem punição.

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Redação Futemais
5 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • O pedido de CPI sobre o contrato CBF-Nike foi protocolado em março de 1999, mas só foi instalado em outubro de 2000.
  • Zagallo, Ricardo Teixeira e Ronaldo depuseram, entre outros 125 nomes ao longo de 237 horas de reunião.
  • O relatório final, de 800 páginas, pediu o indiciamento de Ricardo Teixeira e mais 33 pessoas.
  • A CPI da Câmara terminou sem votação em junho de 2001, e o contrato CBF-Nike segue vigente até hoje.

A derrota do Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 não ficou só nos gramados. Menos de um ano depois, o episódio da convulsão de Ronaldo e a suspeita de que a Nike teria influência sobre decisões da seleção brasileira desembocaram em uma Comissão Parlamentar de Inquérito que levaria mais de dois anos, 125 depoentes e 237 horas de reuniões para chegar a um desfecho tão burocrático quanto frustrante para quem esperava respostas.

O pedido formal de abertura da CPI, batizado de Requerimento nº 3, foi protocolado na Câmara dos Deputados em 11 de março de 1999, menos de nove meses depois da final em Paris. Ainda assim, a comissão demorou mais de um ano e meio para sair do papel. O então presidente da Câmara, Michel Temer, recusou-se a instalá-la em abril daquele ano, alegando uma norma interna que limitava o número de CPIs simultâneas em funcionamento. A resistência levou deputados do PCdoB a recorrer ao Supremo Tribunal Federal por meio de mandado de segurança, enquanto parlamentares do PT já haviam procurado o Ministério Público do Distrito Federal. As denúncias que embasavam o pedido iam além do episódio de Ronaldo: apontavam que o contrato deixaria o calendário de jogos da seleção subordinado ao interesse comercial da patrocinadora, e traziam ainda acusações de trabalho infantil e exploração trabalhista ligadas à marca na Ásia.

Duas CPIs, um só contrato sob investigação

A comissão da Câmara só foi de fato instalada em 16 de outubro de 2000, sob a presidência do deputado Aldo Rebelo, do PCdoB de São Paulo, com relatoria de Silvio Torres, do PSDB paulista. Paralelamente, o Senado abriu sua própria investigação, mais abrangente, batizada de CPI do Futebol, sob comando do senador Álvaro Dias, com Gilberto Mestrinho na vice-presidência e Geraldo Althoff como relator.

Os depoimentos reservaram momentos tensos. Em 21 de novembro de 2000, Zagallo compareceu à Câmara e chegou a discutir aos gritos com deputados durante seu depoimento. Meses depois, em 10 de abril de 2001, foi a vez de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF havia mais de uma década, afirmar categoricamente que não houve interferência da Nike, nem da própria CBF, na escalação da seleção ou na definição de amistosos, no passado ou no presente. A auditoria apresentada à comissão contou outra história: o balanço da CBF de dezembro de 1995 mostrava saldo positivo de quase 2,9 milhões de reais, o que contradizia a alegação de dificuldades financeiras da entidade naquele período, além de revelar mais de 650 mil reais em doações a campanhas políticas, uma prática vedada por lei para entidades sem fins lucrativos como a CBF era até sua transformação em empresa, em 1998.

Ronaldo também depôs. Negou qualquer pressão da Nike sobre sua escalação para a final de 98, afirmou que os exames médicos feitos em Paris não mostraram nada de anormal e se ofereceu para apresentá-los à comissão, mas recusou-se a discutir os termos de seu contrato pessoal com a marca, alegando confidencialidade. Pelé também foi convocado, com aprovação unânime dos parlamentares, um detalhe curioso considerando que ele mantinha, desde 1993, uma rusga pública de oito anos com João Havelange depois de acusar Ricardo Teixeira de corrupção. O próprio Aldo Rebelo chegou a acusar Teixeira de arquitetar, com o próprio Pelé, uma espécie de acordo para enfraquecer os trabalhos da CPI por dentro.

💡 Curiosidade

Em 2015, quando o então senador Romário pediu acesso ao acervo completo da CPI para uma nova investigação sobre futebol, a Câmara dos Deputados informou que seriam necessários 75 dias úteis apenas para copiar todo o material armazenado: 21,5 metros de documentos, 62 fitas e 129 CDs e disquetes. O episódio é um retrato e tanto de como a apuração foi arquivada sem maior escrutínio nos anos seguintes.

O relatório de 800 páginas e o desfecho em pizza

Concluído em 6 de junho de 2001, o relatório final da CPI da Câmara somava 800 páginas e ia muito além do caso Ronaldo. O relator Silvio Torres apontou cláusulas contratuais que considerava abusivas, entre elas a possibilidade de a Nike convocar até oito jogadores da seleção para ações de marketing e interferir na escolha dos amistosos disputados pelo time. O contrato original, assinado em 1995 no valor de 40 milhões de dólares anuais, com vigência até 2005 e substituindo a antiga patrocinadora Umbro, havia sido firmado unilateralmente por Ricardo Teixeira de um lado, e por quatro executivos da Nike do outro, uma assimetria que, segundo a denúncia, gerava prejuízos anuais à CBF. Diante do que considerou um conjunto robusto de irregularidades, o relatório pediu o indiciamento de Ricardo Teixeira e outras 33 pessoas.

Mesmo assim, em 13 de junho de 2001, após oito meses de trabalho, a CPI da Câmara encerrou suas atividades sem levar o relatório a votação. O próprio Silvio Torres justificou a decisão pelo receio de que todo o esforço fosse anulado por uma rejeição em plenário, um desfecho que o jargão político nacional resume, com ironia, como uma CPI que "terminou em pizza". A CPI do Futebol, no Senado, seguiu até novembro daquele ano: em 17 de outubro, Álvaro Dias anunciou o encerramento dos trabalhos com a apresentação de um relatório dividido em quatro volumes, e em 29 de novembro confirmou a entrega do documento final, prometendo desdobramentos jurídicos junto ao Ministério Público e à própria Câmara. Não há registro público, porém, de uma votação em plenário que tenha efetivamente aprovado esse relatório com o mesmo nível de repercussão que teve a rejeição na Câmara.

O que restou, mais de vinte anos depois

Na prática, nenhuma consequência jurídica direta resultou de toda a investigação. Em entrevista de 2006, o deputado Dr. Rosinha, que integrou a comissão, resumiu o sentimento de impotência que ficou: o Ministério Público, segundo ele, ficou impedido de atuar sobre o caso. Na mesma entrevista, chegou a afirmar, de forma contundente, que "quem escala esse time não foi o técnico" e que "há jogos claramente arranjados", declarações que permanecem como opinião pessoal de um parlamentar anos depois dos fatos, sem qualquer comprovação adicional que as sustente.

Ricardo Teixeira seguiu na presidência da CBF até 2012, quando renunciou em meio a desgastes com o governo Dilma Rousseff durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Só em novembro de 2019 ele foi banido vitaliciamente do futebol pelo Comitê de Ética da Fifa, mas por um caso completamente distinto, ligado a propinas de 32,3 milhões de reais no esquema conhecido como ISL, envolvendo direitos de transmissão da Copa Libertadores, sem relação direta com a CPI da Nike. Quanto ao contrato que motivou toda a investigação, longe de ser rompido, ele foi renovado em dezembro de 2024, com vigência até 2038 e pagamento-base de 100 milhões de dólares anuais à CBF, um valor que dá a dimensão de como aquele relacionamento comercial, tão questionado no Congresso duas décadas antes, segue sendo um dos pilares financeiros do futebol brasileiro.

Para quem quer entender de onde toda essa desconfiança começou, vale revisitar o episódio que deu origem a tudo: a convulsão de Ronaldo horas antes da final de 98 e o debate sobre o que é fato e o que é teoria naquela polêmica decisão.

Com informações de A Tarde e da Câmara dos Deputados.

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