O que é a Taça das Bolinhas e por que ela virou uma disputa entre Flamengo e São Paulo
Entenda o que é o troféu apelidado de Taça das Bolinhas e por que Flamengo e São Paulo brigam por ele na Justiça há mais de dez anos.
⚡️ Leitura dinâmica
- A Taça das Bolinhas é o apelido do Troféu Copa Brasil, criado em 1975 pela CBD.
- Ela seria entregue ao primeiro clube tricampeão seguido ou pentacampeão alternado do Brasileirão.
- Flamengo e São Paulo disputam o troféu na Justiça desde 2010, por causa do título de 1987.
- Em 13 de julho de 2026, a Justiça revogou a entrega da taça ao São Paulo, reabrindo o caso.
Na noite de 13 de julho de 2026, a Justiça Federal de São Paulo revogou a decisão que havia entregado ao São Paulo um troféu com um apelido tão curioso quanto sua história: a Taça das Bolinhas. Para quem nunca ouviu falar, o nome soa quase como brincadeira, mas por trás dele existe uma disputa que já dura mais de uma década, envolve dois dos maiores clubes do futebol brasileiro e, mesmo depois de passar pelas mais altas instâncias da Justiça, ainda não tem um fim à vista.
A Taça das Bolinhas é o apelido popular do Troféu Copa Brasil, criado em 1975 pela então CBD, atual CBF, como oferecimento da Caixa Econômica Federal. Ao contrário do que o nome pode sugerir, ela não representa uma competição à parte nem um método de sorteio. Trata-se de um objeto físico específico, destinado ao primeiro clube que conquistasse o Campeonato Brasileiro três vezes seguidas ou cinco vezes de forma alternada, contando a partir daquele ano de criação.
O troféu, assinado pelo artista plástico Maurício Salgueiro, tem 60 centímetros de altura, pesa 5,6 quilos e se apoia sobre uma base de jacarandá. Sua peça mais marcante está no corpo: 156 esferas distribuídas em 13 níveis crescentes, sendo 155 de prata banhada a ródio e uma única, no topo, de ouro puro. A ideia por trás do desenho era simbolizar o crescimento de um clube ao longo das disputas do campeonato, culminando na esfera dourada reservada ao futuro pentacampeão ou tricampeão consecutivo. Diante de tantas esferas de metal, o apelido popular surgiu quase naturalmente e hoje é mais conhecido que o próprio nome oficial do troféu.
Uma disputa que atravessa décadas e quase toda a Justiça brasileira
A raiz da polêmica está em 1987, ano de um Campeonato Brasileiro disputado sob um formato tão conturbado que resultou em dois campeões diferentes, reconhecidos por entidades rivais. Em 7 de fevereiro de 1988, o Sport venceu o Guarani por 1 a 0 e foi confirmado pela CBF como campeão daquele ano, um fato que décadas depois se tornaria o centro de toda a briga pela Taça das Bolinhas.
O caso ficou latente por mais de vinte anos, até que, em 14 de abril de 2010, a CBF decidiu entregar o troféu ao São Paulo, sob a justificativa de que o clube havia somado cinco títulos brasileiros de forma alternada, em 1977, 1986, 1991, 2006 e 2007. A entrega física aconteceu em 14 de fevereiro de 2011, mesmo com uma liminar do Flamengo ainda pendente na Justiça. Uma semana depois, em 21 de fevereiro, a própria CBF emitiu uma nota reconhecendo também o Flamengo como campeão de 1987, o que, somado aos títulos de 1980, 1982, 1983 e 1992, daria ao clube carioca um pentacampeonato alternado igualmente apto a reivindicar a taça.
A confusão institucional teve reflexo quase imediato. Já em 22 de fevereiro de 2011, a Justiça determinou que o São Paulo devolvesse o troféu. O clube resistiu por mais de um ano e só devolveu a peça em 4 de maio de 2012, sob ameaça concreta de remoção por força policial. Nos anos seguintes, o caso passou pelo Superior Tribunal de Justiça e, por três vezes distintas, pelo Supremo Tribunal Federal, sempre com o mesmo resultado: manutenção do Sport como campeão único de 1987, negando o pedido do Flamengo. Em uma dessas decisões, de 2017, o ministro Alexandre de Moraes foi direto ao rejeitar mais um recurso do clube carioca. Segundo o STF, "o que se pretende claramente aqui é a rediscussão do mérito".
Ainda assim, o imbróglio institucional não se encerrou aí. Em 25 de novembro de 2019, a própria CBF emitiu nova nota afirmando que o Flamengo é "merecedor da designação de heptacampeão", mesmo contrariando abertamente as decisões judiciais já consolidadas, um episódio que ilustra bem a tensão entre a entidade máxima do futebol brasileiro e o Judiciário. E foi justamente essa tensão que voltou à tona agora: em 13 de julho de 2026, a 12ª Vara Cível Federal de São Paulo revogou a decisão que entregara a taça ao São Paulo, aceitando um novo recurso do Flamengo e determinando que a competência para decidir o destino definitivo do troféu é, na verdade, da Justiça do Rio de Janeiro. Por ora, a peça segue sob custódia da Caixa Econômica Federal, sem dono confirmado.
Em nota após a decisão mais recente, o Flamengo afirmou que o clube "segue confiante de que terá seus direitos sobre o troféu reconhecidos de forma definitiva". Já o próprio despacho da 12ª Vara reforça o impasse ao delegar o caso a outro tribunal, registrando que "a competência para decidir sobre a destinação da taça é da Justiça do Rio de Janeiro".
A Taça das Bolinhas já foi entregue e devolvida uma vez, em 2011 e 2012, mas nunca voltou a ser exibida publicamente por nenhum dos dois clubes desde então. Ela está guardada em local não revelado sob custódia da Caixa Econômica Federal, à espera de uma resolução judicial que, mais de trinta e cinco anos depois do problema de origem em 1987, ainda não tem data para sair.
Por que o caso não tem um fim à vista
O que torna esse imbróglio tão duradouro é justamente sua origem dupla. Como duas entidades diferentes declararam campeões distintos em 1987, cada decisão judicial posterior tende a validar apenas uma das contagens, sem necessariamente encerrar o direito de recurso da outra parte. Enquanto o Sport segue sendo reconhecido oficialmente como campeão único daquele ano pelas mais altas instâncias da Justiça, o Flamengo mantém viva, institucionalmente, sua própria contagem alternativa, amparada por notas da própria CBF que contrariam decisões judiciais transitadas em julgado.
Para o torcedor comum, o efeito prático é curioso. Existe um troféu física e simbolicamente reconhecido pelo futebol brasileiro, com um desenho que remete à ideia de conquista gradual e definitiva, mas seu destino segue em aberto desde antes de boa parte dos jogadores da atual geração ter nascido. Enquanto Flamengo e São Paulo discutem judicialmente quem tem mais direito à peça, a Taça das Bolinhas segue guardada, à espera de uma decisão que, se a história recente serve de indicativo, ainda deve demorar bastante para chegar.
Com informações de CNN Brasil e Lance!.
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