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Por que a Inglaterra tem fama de perder nos pênaltis? Entenda a maldição

De 1990 a 2024, veja por que toda disputa de pênaltis da Inglaterra em Copas e Eurocopas carrega o peso de décadas de traumas, e o que mudou nos últimos anos.

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Redação Futemais
6 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • Antes de 2018, a Inglaterra havia perdido todas as suas disputas de pênaltis em Copas do Mundo, um jejum de 22 anos sem vencer um shootout em torneio grande.
  • A lista de vilões involuntários inclui Stuart Pearce e Chris Waddle (1990), Gareth Southgate (1996) e David Batty, que nunca tinha batido um pênalti profissionalmente antes de errar o decisivo em 1998.
  • A virada veio em 2018, contra a Colômbia, depois de um trabalho específico de preparação psicológica montado por Gareth Southgate como técnico.
  • Mesmo assim, a maldição voltou a assombrar a Inglaterra na final da Eurocopa de 2020, perdida nos pênaltis para a Itália.

Toda vez que uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa chega à fase eliminatória, uma pergunta ronda os torcedores ingleses e é repetida à exaustão pela imprensa britânica: será que dessa vez a Inglaterra vai resistir na hora dos pênaltis? A dúvida não é paranoia à toa. Por quase três décadas, a seleção inglesa colecionou um dos históricos mais dolorosos do futebol mundial nessas disputas, ao ponto de o fenômeno virar assunto de livro de psicologia esportiva e de trabalho de bastidor de técnico.

Trinta anos de traumas na marca da cal

Tudo começou na Copa do Mundo de 1990, na Itália: na semifinal contra a Alemanha Ocidental, em Turim, depois de 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, veio a primeira disputa de pênaltis da história da seleção inglesa em torneios grandes. Stuart Pearce teve a cobrança defendida pelo goleiro Bodo Illgner, e Chris Waddle mandou a dele para fora, dando a vitória aos alemães por 4 a 3.

Seis anos depois, foi a vez de um jovem zagueiro chamado Gareth Southgate entrar para essa história, e da pior forma. Na semifinal da Eurocopa de 1996, em Wembley, com a torcida inglesa em êxtase depois de uma campanha animadora em casa, o jogo terminou empatado em 1 a 1 com a Alemanha. Na disputa de pênaltis, as cinco primeiras cobranças de cada lado foram convertidas; na sexta rodada, Southgate teve o chute defendido por Andreas Köpke, e Andreas Möller converteu a cobrança que classificou os alemães, por 6 a 5. "Conviver com isso é extremamente difícil", disse Southgate anos depois, em entrevista ao jornalista alemão Ronald Reng. "Foi meu primeiro grande torneio pela seleção e eu joguei muito bem, mas a única coisa que as pessoas lembram é desse pequeno, bobo erro. A única opinião que as pessoas têm sobre Gareth Southgate é que ele não sabe bater pênalti."

Em 1998, na Copa da França, o roteiro se repetiu de um jeito quase cruel. Nas oitavas de final, contra a eterna rival Argentina, em Saint-Étienne, depois de um 2 a 2 daqueles para a história, a disputa de pênaltis chegou à quinta cobrança inglesa, e o técnico escalou o volante David Batty para bater. Batty nunca havia cobrado um pênalti profissionalmente antes daquele momento, nem por clube nem pela seleção. O goleiro argentino Carlos Roa defendeu, e a Argentina venceu por 4 a 3.

A maldição seguiu firme nos anos seguintes: eliminação para Portugal na Eurocopa de 2004, com pênalti perdido por David Beckham e outro defendido pelo goleiro português Ricardo, que ainda tirou as luvas antes de bater ele mesmo o pênalti da classificação; nova queda para Portugal nas quartas da Copa de 2006, num jogo lembrado até hoje pela imagem de Cristiano Ronaldo piscando o olho para o banco português depois da expulsão de Wayne Rooney; e mais uma eliminação nos pênaltis contra a Itália, nas quartas da Eurocopa de 2012.

O fim do jejum, ao lado da garrafa de água

O tabu de 22 anos sem vencer uma disputa de pênaltis em torneio grande só caiu na Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Nas oitavas de final, contra a Colômbia, a Inglaterra venceu por 4 a 3 nos pênaltis, com o goleiro Jordan Pickford defendendo a cobrança de Carlos Bacca e Eric Dier convertendo o pênalti decisivo. O próprio Pickford havia estudado as tendências de cada batedor colombiano e, segundo relatos da época, colou anotações na etiqueta da própria garrafa de água, consultando-as ao longo da disputa.

Por trás da virada estava um trabalho deliberado de Gareth Southgate, agora como técnico. Ele contratou a psicóloga esportiva Pippa Grange para trabalhar cultura de equipe, visualização e um ambiente psicologicamente mais seguro para os jogadores, além de um analista de dados dedicado a redefinir a ordem dos batedores e as rotinas antes de cada cobrança. "Não é sobre sorte. Não é sobre acaso", disse Southgate antes do jogo contra a Colômbia. "É sobre performar uma habilidade sob pressão. Existem coisas individuais que você pode trabalhar dentro disso. [...] Há muito que podemos fazer para ser donos do processo, e não sermos controlados por ele."

O resultado apareceu nos números: sob Southgate, a Inglaterra passou a vencer disputas de pênaltis com uma frequência muito maior do que em toda a sua história anterior, batendo a Colômbia em 2018, a Suíça na Liga das Nações em 2019 e a Suíça de novo na Eurocopa de 2024, quando Trent Alexander-Arnold converteu a cobrança decisiva depois de Pickford defender de Manuel Akanji.

A exceção que ainda dói

Mas a maldição não desapareceu de vez. Na final da Eurocopa de 2020, disputada em 2021 por causa da pandemia, em Wembley e diante da própria torcida, a Inglaterra empatou em 1 a 1 com a Itália e voltou a perder nos pênaltis, por 3 a 2. Marcus Rashford acertou a trave, e Jadon Sancho e o então garoto de 19 anos Bukayo Saka tiveram as cobranças defendidas pelo goleiro Gianluigi Donnarumma. Nas horas seguintes, os três jogadores, todos negros, sofreram uma onda de abuso racista nas redes sociais, o que levou a Football Association e o próprio Southgate a condenarem publicamente o episódio. "Para alguns deles serem abusados é imperdoável", disse o técnico. Rashford respondeu diretamente aos ataques: "Posso aceitar críticas à minha atuação o dia todo, meu pênalti não foi bom o suficiente, deveria ter entrado, mas eu nunca vou pedir desculpas por quem eu sou e de onde eu vim."

💡 Curiosidade

Segundo o livro "Twelve Yards" (2014), do jornalista britânico Ben Lyttleton, referência mundial sobre a ciência do pênalti, uma seleção que venceu suas duas últimas disputas tem 89% de chance de vencer a próxima, enquanto uma que perdeu as duas últimas cai para apenas 57%. É um dado que ajuda a explicar por que a fama ruim da Inglaterra parecia se alimentar sozinha antes de 2018: o próprio histórico de derrotas virava um peso psicológico extra para o próximo jogador que pisasse na marca da cal.

Um problema que nunca foi só de sorte

O mesmo livro de Lyttleton traz outro dado revelador: a chance de conversão de um pênalti batido para empatar uma disputa e evitar a eliminação é de apenas 62%, contra 92% quando a mesma cobrança é batida para vencer o confronto. Ou seja, o peso psicológico de bater "para não perder", justamente o cenário que se repetiu tantas vezes com a Inglaterra ao longo de décadas, é estatisticamente muito mais pesado do que bater para fechar a vitória. Some-se a isso outro achado do autor: jogadores já consagrados como estrelas, caso de Beckham em 2004, tendem a performar pior sob a pressão específica do pênalti decisivo do que jogadores menos badalados, o que ajuda a explicar por que nomes de peso protagonizaram tantos dos erros mais lembrados da seleção inglesa.

Depois de 2018, a Inglaterra deixou de ser sinônimo automático de fracasso na marca da cal, mas a Eurocopa de 2020 provou que o fantasma nunca se apaga de vez, ele só passou a dividir espaço com um histórico mais recente de vitórias construídas na base do trabalho, e não apenas na torcida por um pouco de sorte.

Enquanto a Inglaterra tenta enterrar de vez seus próprios fantasmas, do outro lado do torneio a Espanha carrega o peso de ter esperado 76 anos pelo primeiro título mundial. Prova de que, em Copa do Mundo, até as maiores seleções demoram para aprender a vencer.

Com informações de TNT Sports, FourFourTwo e CNN.

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