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Por que a Espanha demorou 76 anos para ganhar sua primeira Copa do Mundo

A Espanha estreou em Copas em 1934 e só ergueu a taça em 2010. Entenda décadas de fracassos, arbitragens polêmicas e a revolução que mudou tudo.

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Redação Futemais
7 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • A Espanha estreou em Copas do Mundo em 1934 e só foi campeã em 2010, um intervalo de 76 anos.
  • Pelo caminho, acumulou eliminações amargas: 6 a 1 para o Brasil em 1950, pênaltis perdidos em 1986 e uma arbitragem muito questionada contra a Coreia do Sul em 2002.
  • A virada começou com o técnico Luis Aragonés e o título inédito da Eurocopa de 2008, base do estilo que ficou conhecido como tiki-taka.
  • Na Copa de 2010, a Espanha perdeu a estreia para a Suíça e, mesmo assim, foi campeã com gol de Andrés Iniesta na prorrogação da final.

Um vídeo em preto e branco, um pouco tremido, de um vestiário qualquer, voltou a circular nas redes sociais nesta semana. Nele, um técnico de óculos grossos e voz rouca grita para os jogadores: "Ey, y escuchadme bien. Nuestro momento ha llegado después de dos años. Nos han dado palizas de todos los colores. Vamos a demostrarlo ahí." O discurso é de Luis Aragonés, e tem quase duas décadas. Ele voltou a bombar justamente agora que a Espanha está, de novo, numa final de Copa do Mundo. É só a segunda vez na história. E isso levanta uma pergunta que qualquer buscador do Google já fez em algum momento: por que a Espanha, sempre cheia de craques, demorou tanto para ganhar seu primeiro título mundial?

A resposta não é simples, e passa por 76 anos de frustração antes da redenção.

Uma seleção favorita que nunca entregava

A Espanha estreou em Copas do Mundo em 1934, na Itália, e a primeira eliminação já veio com direito a drama. Nas quartas de final, contra a anfitriã, o jogo terminou empatado em 1 a 1 depois da prorrogação, numa partida tão violenta que ficou conhecida como a "Batalha de Florença": o goleiro espanhol Ricardo Zamora saiu machucado e não pôde jogar o desempate, enquanto o italiano Mario Pizziolo teve a perna quebrada e nunca mais vestiu a camisa da própria seleção. Sem o goleiro titular, a Espanha perdeu o replay por 1 a 0, gol de cabeça de Giuseppe Meazza, e ficou pelo caminho.

Dezesseis anos depois, no Brasil, veio o que talvez seja a eliminação mais simbólica de todas. A Espanha chegou invicta à fase final de 1950, depois de eliminar a própria Inglaterra, em sua estreia em Copas, com gol de Zarra. Mas no quadrangular decisivo, precisou enfrentar o anfitrião: em 13 de julho, no Maracanã lotado com 153 mil pessoas, o Brasil aplicou 6 a 1 na Espanha, com dois gols de Ademir de Menezes, dois de Chico, além de Jair e Zizinho. A Espanha terminou em quarto lugar, e o resultado ficou marcado, até hoje, como uma espécie de Maracanazo ao contrário, três dias antes do próprio Maracanaço acontecer com a seleção anfitriã.

Depois disso, o padrão se repetiu torneio após torneio. Em 1986, no México, a Espanha caiu nas quartas de final para a Bélgica, numa disputa de pênaltis em que Eloy desperdiçou a cobrança decisiva, defendida pelo goleiro Jean-Marie Pfaff. Em 1994, nos Estados Unidos, o algoz foi a Itália, num jogo que ficou conhecido pela cotovelada do zagueiro Mauro Tassotti no rosto de Luis Enrique, sem punição em campo, quebrando o nariz do meia espanhol nos minutos finais; a Fifa revisaria o lance depois do torneio e suspenderia Tassotti por oito jogos, mas o resultado, 2 a 1 para os italianos, já estava dado. Em 1998, na França, a Espanha nem passou da fase de grupos, caindo diante de Nigéria, Paraguai e Bulgária num tropeço considerado chocante para uma seleção do seu status.

O ponto mais baixo, porém, ainda estava por vir. Na Copa de 2002, disputada na Coreia do Sul e no Japão, a Espanha caiu nas quartas de final justamente para os anfitriões coreanos, depois de dois gols anulados por decisões hoje amplamente questionadas: um gol de cabeça de Fernando Morientes anulado por suposta falta que as imagens não confirmam, e outro, também de Morientes, anulado por uma bola que, segundo os replays, não havia saído. "Todo mundo viu que foram dois gols perfeitamente legais. Se a Espanha não venceu, foi porque não quiseram", resumiria o zagueiro Iván Helguera depois. O ex-técnico espanhol José Antonio Camacho foi ainda mais direto tempos depois, ao comentar o desempenho do bandeirinha da partida: "Eu creio que o bandeirinha estava comprado. Mas também havia uma permissividade muito grande por parte do árbitro."

Aragonés muda tudo, e nasce a Roja

A virada começou em julho de 2004, quando Luis Aragonés assumiu a seleção depois de mais uma eliminação precoce, dessa vez na Eurocopa daquele ano. Ele tomou decisões impopulares na época, como deixar de fora nomes consagrados, e resumiu sua lógica sem rodeios: "Isso não é um debate sobre Raúl. Me preocupo com os jogadores, e não com os clubes", disse ao anunciar o corte do então capitão do Real Madrid da lista para a Eurocopa de 2008.

Aragonés também queria dar à seleção uma identidade, algo como o "canarinha" do Brasil ou a "albiceleste" argentina: foi assim que nasceu, sob sua gestão, o apelido La Roja. E foi sob seu comando que a Espanha finalmente destravou um jejum de 44 anos sem título grande (o único anterior era a Eurocopa de 1964, como anfitriã): na final da Eurocopa de 2008, em Viena, a Espanha bateu a Alemanha por 1 a 0, gol de Fernando Torres aos 33 minutos do primeiro tempo. Xavi Hernández, eleito o melhor jogador do torneio, resumiria anos depois o que aquele time representou: "Luis foi o ponto de virada. Apostamos em jogadores de estatura menor, como Iniesta, Cazorla, Fàbregas, David Silva e David Villa."

Foi nesse período que o mundo passou a chamar o estilo espanhol de tiki-taka, termo popularizado pelo narrador Andrés Montés ainda na Copa de 2006, ao comentar um jogo contra a Tunísia. Com a base do Barcelona de Xavi, Iniesta, Puyol e Piqué, e o time de Pep Guardiola vivendo seu auge no clube catalão a partir de 2008, a seleção espanhola transformou posse de bola e troca de passes curtos em doutrina. Xavi resumiria mais tarde, em entrevista ao jornalista Sid Lowe, o que buscava em campo: "Penso rápido, procuro espaços. É isso que eu faço: procurar espaços. O dia inteiro. Estou sempre olhando. [...] Espaço, espaço, espaço. É como estar no PlayStation."

2010: campeã mesmo perdendo a estreia

Se a Eurocopa de 2008 provou que a Espanha finalmente sabia vencer, a Copa de 2010, na África do Sul, quase começou como mais um capítulo da velha maldição. Na estreia, em 16 de junho, a atual campeã europeia perdeu por 1 a 0 para a Suíça, gol de Gelson Fernandes, num resultado que a própria Fifa classificaria depois como "um dos maiores choques da história da competição". A Suíça não vencia a Espanha havia 105 anos.

A Espanha se recuperou vencendo Honduras e Chile na sequência do grupo e, a partir daí, construiu uma campanha de um rigor quase matemático: venceu Portugal, Paraguai, e a Alemanha na semifinal, sempre por 1 a 0, com gol de Carles Puyol garantindo a primeira final de Copa do Mundo da história espanhola. A decisão, contra a Holanda, em Joanesburgo, entrou para a história por outro motivo: foram 14 cartões amarelos, recorde para uma final de Copa do Mundo segundo o Guinness World Records, e a expulsão do holandês John Heitinga por dois amarelos, já na prorrogação. Foi nesse cenário de jogo truncado que, aos 116 minutos, Andrés Iniesta recebeu de Cesc Fàbregas e bateu cruzado para decretar o título. Ao comemorar, ergueu a camisa da seleção e revelou uma camiseta por baixo com os dizeres "Dani Jarque, siempre con nosotros", em homenagem ao ex-companheiro de base e capitão do Espanyol, morto de parada cardíaca um ano antes.

Vicente del Bosque, o técnico que sucedeu Aragonés depois da Eurocopa de 2008, resumiu o momento ainda em campo: "A final prestigiou o futebol ofensivo, de qualidade. Há uma grande alegria no vestiário, é difícil pronunciar palavras neste momento." Anos depois, Xavi diria à Fifa algo parecido com o que qualquer torcedor espanhol sentiu naquela noite: "Quando você ganha a Copa do Mundo, você é campeão para sempre."

💡 Curiosidade

Um dos personagens mais inusitados da Copa de 2010 nem jogava bola: era um polvo. Paul, do aquário Sea Life de Oberhausen, na Alemanha, acertou o resultado dos 8 jogos que "previu" naquele Mundial, incluindo a final, escolhendo sempre a caixa com comida marcada com a bandeira do futuro vencedor. O fenômeno foi tão grande que o então primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, chegou a comentar publicamente o caso, e o ministro da Indústria pediu que o animal recebesse proteção especial depois de acertar a vitória espanhola.

Um título que ainda pesa como exceção

Mesmo depois de 2010, a Espanha segue com uma única estrela na camisa, o que a coloca atrás de Brasil (cinco títulos), Alemanha e Itália (quatro cada) e Argentina (três) na lista de maiores campeãs. É por isso que a nova final, quase duas décadas depois daquela noite em Joanesburgo, tem um peso simbólico particular: não se trata apenas de tentar o bicampeonato, mas de provar que o título de 2010 não foi um raio caindo uma vez só sobre uma seleção historicamente incapaz de entregar o que prometia.

Histórias assim não faltam nas Copas do Mundo. Do outro lado da chave, duas rivais eternas carregam seus próprios fantasmas: a Inglaterra tenta se livrar de vez de uma fama antiga de perder nos pênaltis, enquanto o duelo entre argentinos e ingleses segue sendo uma das rivalidades mais carregadas de história do futebol mundial.

Com informações de Fifa.com, Trivela e Inside Fifa.

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