De onde vem a rivalidade entre Argentina e Inglaterra no futebol
Da expulsão de Rattín em 1966 à Mão de Deus de Maradona em 1986, entenda como um conflito militar e três Copas do Mundo criaram uma das maiores rivalidades do futebol.
⚡️ Leitura dinâmica
- A rivalidade nasceu oficialmente em 1966, quando o capitão argentino Antonio Rattín foi expulso em Wembley e o técnico inglês Alf Ramsey chamou os argentinos de "animais".
- A Guerra das Malvinas, em 1982, deixou 649 argentinos e 255 britânicos mortos e carregou de peso político o próximo encontro das seleções, quatro anos depois.
- Em 1986, Diego Maradona fez os dois gols mais lembrados da história das Copas contra a Inglaterra: a Mão de Deus e o Gol do Século, no mesmo jogo.
- Em 1998, o duelo ganhou mais um capítulo com o golaço de Michael Owen, aos 18 anos, e a expulsão de David Beckham, que virou o homem mais odiado da Inglaterra por um tempo.
Poucos confrontos do futebol carregam tanta história fora de campo quanto Argentina e Inglaterra. Quando as duas seleções se cruzam, o jogo nunca é só mais um jogo: é a soma de uma guerra, de um gol de mão que virou lenda e de décadas de provocação mútua. É disso que trata o nosso "além do futebol": entender por que esse duelo pesa tanto, muito antes de a bola rolar.
1966: a expulsão que mudou as regras do jogo
A rivalidade moderna entre as duas seleções nasce oficialmente em 23 de julho de 1966, nas quartas de final da Copa do Mundo disputada na Inglaterra. Em Wembley, diante de mais de 90 mil pessoas, o capitão argentino Antonio Rattín foi expulso aos 36 minutos do primeiro tempo por reclamação verbal com o árbitro alemão Rudolf Kreitlein, que não falava espanhol e, segundo o próprio Rattín, não tinha como saber exatamente o que ele havia dito. Irritado, Rattín se recusou a deixar o campo por vários minutos, amassou uma bandeirinha de escanteio britânica e fez gestos para a torcida local, que passou a atirar latas de cerveja no gramado. A Inglaterra venceu por 1 a 0 e seguiu rumo ao título daquela Copa, mas o resultado ficou em segundo plano diante da confusão.
O técnico inglês Alf Ramsey não escondeu o que pensava do adversário depois da partida: "Nosso melhor futebol vai aparecer contra o tipo certo de oposição, um time que vem para jogar futebol, e não agir como animais." A frase, chamando os argentinos de animais, causou revolta na Argentina e chegou a fazer Ramsey impedir que seus jogadores trocassem camisas com os rivais depois do apito final, num gesto até então rotineiro de respeito esportivo. Curiosamente, as estatísticas da partida mostraram a Inglaterra cometendo mais faltas que a Argentina, 33 contra 19, o que reforçou entre os argentinos a sensação de injustiça.
1982: uma guerra antes da revanche
Entre um jogo e outro, veio um capítulo que nada tinha a ver com futebol, mas que mudaria o peso emocional de tudo o que viria depois. Em 2 de abril de 1982, a ditadura argentina, então liderada pelo general Leopoldo Galtieri e enfrentando uma crise econômica profunda, invadiu as Ilhas Malvinas, arquipélago no Atlântico Sul sob controle britânico havia mais de um século. A primeira-ministra Margaret Thatcher respondeu enviando uma força-tarefa naval, e o conflito se estendeu por 74 dias, terminando com a rendição argentina em 14 de junho daquele ano. Ao todo, 649 militares argentinos e 255 britânicos morreram, além de três civis das próprias ilhas. A derrota, somada à repressão da ditadura, precipitou a renúncia de Galtieri poucos meses depois; para Thatcher, a vitória rápida ajudou a reverter sua impopularidade e a garantir a reeleição no ano seguinte.
1986: a Mão de Deus e o Gol do Século, no mesmo jogo
Foi só quatro anos depois da guerra, em 22 de junho de 1986, que Argentina e Inglaterra voltariam a se enfrentar numa Copa do Mundo, agora nas quartas de final no Estádio Azteca, na Cidade do México. E foi ali que Diego Maradona escreveu, sozinho, dois dos gols mais comentados da história do futebol, com seis minutos de diferença.
Aos 51 minutos, num rebote na área inglesa, Maradona, bem mais baixo que o goleiro Peter Shilton, chegou primeiro na bola e a desviou de soco, com a mão esquerda, para dentro do gol. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser validou o lance; anos depois, ele diria que não tinha visto a infração e esperava a sinalização do bandeirinha búlgaro Bogdan Dochev, que nunca veio. Maradona batizaria o gol de "la mano de Dios", a mão de Deus, embora a origem exata da frase seja disputada até hoje, já que boa parte da imprensa argentina da época sequer a registrou na hora. Do lado inglês, o zagueiro Terry Butcher resumiria décadas depois o sentimento que ficou: "Ainda sinto a injustiça até hoje. Foi provavelmente a melhor fraude que você vai ver, e ele se safou."
Quatro minutos depois, aos 55, veio a resposta genial: Maradona pegou a bola ainda no campo de defesa, arrancou driblando Peter Beardsley, Peter Reid, duas vezes Terry Butcher e Terry Fenwick, e ainda passou por Shilton antes de finalizar para o gol, numa corrida de cerca de 55 metros em dez segundos. Em 2002, numa enquete promovida pela própria Fifa, o lance foi eleito o "Gol do Século", com 18.062 votos, à frente do golaço de Michael Owen contra a própria Argentina, em 1998, que ficou em segundo lugar. O atacante inglês Gary Lineker, autor do gol de honra inglês naquela tarde, resumiu o jogo de um jeito que ficaria famoso: "O primeiro gol foi uma vergonha absoluta, o segundo foi obra de um gênio."
Para Maradona, os dois gols nunca foram só sobre futebol. Em entrevistas posteriores, ele conectou diretamente o resultado à guerra recente: "Embora tivéssemos dito antes do jogo que o futebol não tinha nada a ver com a guerra das Malvinas, sabíamos que mataram muitos garotos argentinos lá, mataram como passarinhos. E isso foi vingança." O ex-técnico argentino César Luis Menotti, campeão do mundo em 1978, descreveria o clima da época de um jeito parecido: as pessoas diziam que era ainda melhor que o gol de mão tivesse sido tão injusto, porque doía mais nos ingleses.
1998: Owen, Beckham e um novo vilão
A rivalidade ganhou mais um capítulo na Copa da França, em 30 de junho de 1998, nas oitavas de final, em Saint-Étienne. Aos 16 minutos, o então garoto de 18 anos Michael Owen recebeu passe em profundidade de David Beckham e arrancou driblando dois zagueiros argentinos antes de bater no ângulo, num gol que a própria Fifa passou a tratar como um dos mais icônicos da história das Copas.
Mas o jogo também tem outro protagonista, pelo lado errado da história. Aos 47 minutos, derrubado por Diego Simeone, Beckham reagiu com um chute para trás contra a perna do argentino, que caiu de forma exagerada; o árbitro dinamarquês Kim Milton Nielsen expulsou o inglês na hora. Anos depois, no documentário "Beckham" (Netflix, 2023), o próprio Simeone admitiria ter superdimensionado o contato. Na época, porém, o estrago já estava feito: o jogo terminou 2 a 2, e a Argentina venceu nos pênaltis por 4 a 3, com o volante David Batty, que nunca havia batido um pênalti profissionalmente antes daquele momento, desperdiçando a cobrança decisiva (aliás, só mais um capítulo na longa história de sofrimento inglês nos pênaltis). Beckham voltou à Inglaterra como o homem mais odiado do país: o tabloide Daily Mirror estampou a manchete "Dez leões heroicos, um garoto estúpido", e um boneco com a camisa dele chegou a ser pendurado do lado de fora de um pub no sudeste de Londres.
Foi por causa da confusão em torno da expulsão de Rattín em 1966, quando ninguém em campo tinha certeza de quem já havia sido advertido, que o árbitro inglês Ken Aston teve a ideia do sistema de cartões amarelo e vermelho, inspirado, segundo o relato mais conhecido, nas cores de um semáforo que ele viu ao dirigir por Londres logo depois do episódio. O sistema estrearia oficialmente na Copa do Mundo de 1970, no México, e se tornou um dos símbolos mais universais do futebol.
Passadas quase seis décadas desde Wembley 1966, o duelo entre Argentina e Inglaterra segue sendo um dos poucos do futebol em que cada novo capítulo se soma aos anteriores, em vez de apagá-los. Guerra, gol de mão, expulsões e um garoto que se tornaria vilão nacional por um erro de um segundo: poucos confrontos resumem tão bem por que o futebol, às vezes, é mesmo mais do que futebol.
Não é a única seleção que carrega um passado pesado em Copas do Mundo: a Espanha levou 76 anos para ganhar seu primeiro título mundial, prova de que até favoritas eternas às vezes demoram para escrever sua própria história.
Com informações de ESPN, Infobae e National Army Museum.
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