Foto: acervo Futemais
Diego Maradona: a trajetória completa e o julgamento que segue aberto na Argentina
Do Argentinos Juniors à Copa de 1986, os números reais da carreira, o doping, a morte em 2020 e o segundo julgamento da equipe médica, que começou em abril de 2026.
⚡️ Leitura dinâmica
- Trajetória completa de Diego Maradona, dos Cebollitas do Argentinos Juniors ao fim no Boca Juniors.
- Os números oficiais: 259 gols em clubes e 34 pela Argentina, totalizando 293, e não os 330 ou 350 que circulam por aí.
- A Copa de 1986, com a Mano de Dios e o gol do século marcados na mesma partida, com quatro minutos de diferença.
- O segundo julgamento da equipe médica começou em 14 de abril de 2026, depois que o primeiro foi anulado por escândalo envolvendo a juíza.
Diego Armando Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, e quase seis anos depois a Justiça argentina ainda não decidiu se alguém foi responsável por essa morte. Em abril de 2026 começou o segundo julgamento da equipe médica que cuidava dele, depois que o primeiro foi anulado num escândalo envolvendo a juíza do caso.
Este texto percorre a trajetória inteira: a revelação em Villa Fiorito, os clubes, as duas Copas que definiram a imagem dele, os títulos, os números reais da carreira, as polêmicas e o processo que segue em aberto na Argentina.
Onde Maradona foi revelado
Maradona nasceu em Lanús, na província de Buenos Aires, em 30 de outubro de 1960, e cresceu em Villa Fiorito, um bairro pobre da periferia. Foi revelado pelo Argentinos Juniors, onde jogou nas categorias de base com o grupo apelidado de Cebollitas e estreou no time profissional aos 15 anos, em 1976.
A precocidade dele virou lenda antes mesmo do primeiro título: era comum o menino fazer embaixadinhas no intervalo dos jogos do time principal, como atração à parte.
Os clubes que Maradona defendeu
A carreira dele passou por cinco clubes, em três países:
- Argentinos Juniors (1976 a 1981), onde foi revelado
- Boca Juniors (1981), a primeira passagem, curta e vitoriosa
- Barcelona (1982 a 1984), marcada por lesão e por hepatite
- Napoli (1984 a 1991), o período que o transformou em divindade local
- Sevilla (1992 a 1993) e Newell's Old Boys (1993), no fim de carreira
Ele voltou ao Boca Juniors entre 1995 e 1997, onde jogou a última partida oficial da carreira, um Boca e River em outubro de 1997, e anunciou a aposentadoria no dia do próprio aniversário de 37 anos.
Maradona na Copa de 1978 e na de 1982
Maradona não disputou a Copa de 1978, jogada em casa e vencida pela Argentina. Ele tinha 17 anos e foi cortado da lista final pelo técnico César Luis Menotti, decisão que ele descreveu depois como a maior dor da vida dele até então.
A estreia em Copas veio em 1982, na Espanha, e terminou mal: a Argentina caiu na segunda fase e Maradona foi expulso contra o Brasil, depois de sofrer marcação violenta durante todo o torneio.
Maradona e a Copa de 1986
O Mundial do México é o torneio que define a carreira dele. A Argentina foi campeã, e Maradona foi eleito o melhor jogador da competição.
Nas quartas de final, contra a Inglaterra, ele marcou os dois gols mais discutidos da história do futebol em intervalo de quatro minutos: o primeiro com a mão, que ficaria conhecido como La Mano de Dios, e o segundo depois de um drible que atravessou meio time inglês, eleito o gol do século em votação da Fifa.
Aquela Copa condensou o personagem inteiro: a genialidade e a trapaça, na mesma partida, contra o mesmo adversário, com quatro minutos de diferença. O peso daquele jogo específico também não era só esportivo, e contamos essa história em de onde vem a rivalidade entre Argentina e Inglaterra.
Os títulos que Maradona ganhou
| Título | Clube ou seleção | Ano |
|---|---|---|
| Copa do Mundo | Argentina | 1986 |
| Campeonato Italiano | Napoli | 1986/87 e 1989/90 |
| Copa da Uefa | Napoli | 1988/89 |
| Copa da Itália | Napoli | 1986/87 |
| Campeonato Argentino (Metropolitano) | Boca Juniors | 1981 |
| Copa do Rei | Barcelona | 1982/83 |
Os dois títulos italianos são os que mais dizem sobre a dimensão dele. O Napoli nunca havia sido campeão da Itália antes da chegada de Maradona, e não voltaria a ser por mais de trinta anos depois da saída dele.
Quantos gols Maradona fez na carreira
Aqui vale uma correção que aparece com frequência em textos sobre ele. O número mais citado, 259 gols, é o total dele em clubes, em 490 partidas oficiais ao longo de 21 anos de carreira.
Somando a seleção argentina, onde marcou 34 gols em 91 jogos, o total oficial chega a 293 gols. Números mais altos que circulam por aí, na casa dos 330 ou 350, incluem amistosos e partidas não oficiais.
Pelo Napoli, foram 115 gols em 259 jogos, o que o deixou por décadas como maior artilheiro da história do clube.
Maradona era canhoto de forma quase absoluta. A esmagadora maioria dos gols dele saiu do pé esquerdo, incluindo o gol do século, em que ele percorreu mais de sessenta metros driblando sem trocar de pé uma única vez.
Declínio, doping e polêmicas
A queda começou em Nápoles. Em 1991, Maradona testou positivo para cocaína e foi suspenso por 15 meses, o que encerrou a passagem dele pelo Napoli.
Em 1994, na Copa dos Estados Unidos, foi excluído da competição após teste positivo para efedrina. A imagem dele comemorando um gol contra a Grécia, gritando na câmera, e depois sendo levado pela mão para o exame antidoping, virou o retrato do fim da carreira internacional.
Fora de campo, a vida dele foi marcada por internações, disputas de paternidade, dívidas com o fisco italiano e problemas cardíacos e hepáticos que se agravaram com os anos.
Maradona como técnico
Depois de pendurar as chuteiras, tentou a carreira de treinador. Comandou a seleção argentina entre 2008 e 2010, levando o time à Copa do Mundo da África do Sul, onde foi eliminado nas quartas pela Alemanha, por 4 a 0.
Depois disso passou por clubes nos Emirados Árabes, no México e, por fim, no Gimnasia y Esgrima La Plata, na Argentina, onde estava quando morreu. Como técnico, nunca chegou perto do que foi como jogador.
A morte de Maradona e o julgamento que continua
Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, em uma casa em Tigre, na província de Buenos Aires, onde se recuperava de uma cirurgia na cabeça feita cerca de três semanas antes. A causa registrada foi parada cardiorrespiratória.
O que veio depois é a parte da história que segue aberta. O Ministério Público argentino concluiu que o atendimento domiciliar prestado a ele foi inadequado, e denunciou oito profissionais da equipe médica.
O primeiro julgamento e a anulação
O julgamento começou em março de 2025 e foi anulado em maio do mesmo ano. O motivo não teve nada a ver com as provas: a juíza Julieta Makintach foi afastada por ter participado da produção de um documentário não autorizado sobre o próprio processo que ela julgava. O escândalo levou os outros dois magistrados a renunciar, e um novo tribunal precisou ser sorteado.
O segundo julgamento, em 2026
O novo julgamento começou em 14 de abril de 2026, quase um ano depois da anulação, no Tribunal Oral em lo Criminal nº 7 de San Isidro, com os juízes Alberto Gaig, Alberto Ortolani e Pablo Rolón.
Sete dos oito profissionais denunciados respondem por homicídio simples com dolo eventual, figura que na lei argentina se aplica a quem prevê que a morte pode acontecer e mesmo assim segue com a conduta. As audiências acontecem duas vezes por semana.
Vale registrar com clareza: são acusações, e o processo não tem decisão. Nenhum dos réus foi condenado até o fechamento deste texto, em agosto de 2026.
O legado de Maradona
Maradona é o único jogador que virou objeto de devoção religiosa organizada: existe uma Igreja Maradoniana, fundada em Rosário em 1998, com calendário próprio contado a partir do nascimento dele.
Em Nápoles, o estádio San Paolo foi rebatizado como Stadio Diego Armando Maradona em dezembro de 2020, poucos dias depois da morte. Murais dele cobrem paredes inteiras dos Quartieri Spagnoli, e o time italiano, ao ser campeão em 2023, tratou o título como uma homenagem a ele.
A comparação com Pelé e depois com Messi acompanha o nome dele há quarenta anos e nunca se resolveu, em parte porque Maradona nunca foi só um jogador. Ele foi símbolo de classe, de país e de rebeldia, e carregou os defeitos com a mesma intensidade com que carregou o talento.
Perguntas frequentes sobre Diego Maradona
Onde Maradona foi revelado?
No Argentinos Juniors, onde estreou como profissional em 1976, aos 15 anos.
Quantos gols Maradona fez na carreira?
Foram 259 gols em clubes, em 490 jogos oficiais, mais 34 pela seleção argentina em 91 partidas. O total oficial é de 293 gols.
Maradona jogou a Copa de 1978?
Não. Foi cortado da lista final pelo técnico César Luis Menotti aos 17 anos. A Argentina venceu aquela Copa sem ele.
Quantas Copas do Mundo Maradona ganhou?
Uma, em 1986, no México, quando também foi eleito o melhor jogador do torneio.
Qual foi a causa da morte de Maradona?
Parada cardiorrespiratória, em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, cerca de três semanas depois de uma cirurgia na cabeça. A adequação do atendimento médico domiciliar prestado a ele é o objeto do processo que corre na Justiça argentina.
Alguém foi condenado pela morte de Maradona?
Não. O primeiro julgamento foi anulado em maio de 2025 por causa do afastamento da juíza do caso, e o segundo começou em 14 de abril de 2026, com sete réus acusados de homicídio simples com dolo eventual. O processo segue em andamento.
Por que o estádio do Napoli leva o nome dele?
Porque foi com Maradona que o clube conquistou os dois únicos títulos italianos do século XX, em 1987 e 1990. O antigo San Paolo foi rebatizado Stadio Diego Armando Maradona em dezembro de 2020.
Poucos jogadores tiveram uma carreira tão bem documentada e tão mal resumida quanto a dele. Os números oficiais dizem 293 gols; o que sobrou de Maradona não cabe nesse número, nem no gol com a mão, nem no gol do século. Cabe no fato de que, quase seis anos depois da morte, um tribunal argentino ainda se reúne duas vezes por semana para decidir o que aconteceu com ele.
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