Parallelepiped09/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Por que a altitude atrapalha no futebol e o que muda na bola

Menos pressão de oxigênio derruba a recuperação do jogador, mas o efeito que decide jogo é outro: no ar rarefeito a bola viaja mais rápido e desce menos. Entenda o que acontece em La Paz, e por que a FIFA proibiu a altitude e voltou atrás em um ano.

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Redação Futemais
6 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • Em La Paz não falta oxigênio no ar, o que cai é a pressão atmosférica, e acima de dois mil metros a pressão parcial de oxigênio diminui cerca de 25%.
  • O efeito mais duro no jogo não é o cansaço, é a recuperação entre um sprint e o seguinte, que fica mais lenta e atrasa o time inteiro na dividida.
  • Com menos resistência do ar, a bola viaja mais rápido, desce menos e faz menos curva, o que favorece chute de longe e complica a leitura do goleiro visitante.
  • Chegar dois ou três dias antes é a pior escolha possível: os sintomas agudos já bateram e a adaptação ainda não aconteceu.
  • A FIFA proibiu jogos acima de 2.500 metros em maio de 2007, mudou de posição três vezes em doze meses e suspendeu o veto em maio de 2008, sem nunca retomá-lo.

Toda temporada de Libertadores e de Sul-Americana a cena se repete. Um time brasileiro desembarca em La Paz ou em Quito, joga noventa minutos parecendo outro time, e volta para casa com uma derrota que o torcedor não consegue explicar direito. A resposta pronta, "é a altitude", está correta e não explica nada.

O que a altitude faz, na prática, são três coisas diferentes, e só uma delas tem a ver com o fôlego do jogador. As outras duas quase nunca aparecem na transmissão.

O que o ar rarefeito faz com o corpo

Comece por um mal-entendido comum: em La Paz não falta ar. A quantidade de oxigênio no ar é praticamente a mesma que no Rio de Janeiro, perto de 21%. O que muda é a pressão atmosférica, e é ela que empurra o oxigênio para dentro do sangue.

Acima de dois mil metros, a pressão parcial de oxigênio cai cerca de 25%. O jogador respira o mesmo volume de ar e absorve bem menos oxigênio a cada respiração. O corpo entra em hipóxia, e a resposta imediata é acelerar respiração e batimentos para compensar.

O efeito no jogo não é o cansaço genérico que se imagina. É a recuperação entre os sprints. Um lateral que arranca, volta, e precisa arrancar de novo quarenta segundos depois chega na segunda arrancada sem ter recuperado. Ao longo de um tempo inteiro, isso vira um time inteiro chegando atrasado na dividida. Os sintomas mais duros, dor de cabeça, náusea e insônia, costumam bater fora de campo, na véspera e na madrugada seguinte.

A bola também muda, e disso quase ninguém fala

Esta é a parte que decide jogos e passa despercebida. Com o ar mais rarefeito, a resistência que o ar oferece à bola diminui. A consequência é direta: a bola viaja mais rápido, desce menos no fim do trajeto e faz menos curva.

Para quem chuta, é um presente. Finalização de fora da área que no nível do mar morreria nas mãos do goleiro, na altitude segue longa e alta. Cobrança de falta que faria a curva conhecida sai mais reta e mais veloz. Para o goleiro visitante, que passou a carreira calibrando a leitura de trajetória num ar mais denso, é uma sequência de erros de cálculo que parecem falhas individuais e não são.

É por isso que jogo em La Paz costuma ter placar alto. Não é só o visitante cansado. É que o gol ficou mais fácil de fazer para os dois lados, e o time da casa sabe disso há décadas.

Por que chegar antes pode piorar

Aqui está a decisão mais contraintuitiva do calendário sul-americano. Existem duas estratégias que funcionam, e elas são opostas.

A primeira é chegar em cima da hora, poucas horas antes da bola rolar, e jogar antes que os sintomas agudos da altitude atinjam o pico. A segunda é chegar com duas semanas ou mais, tempo suficiente para o corpo começar a produzir mais glóbulos vermelhos e se adaptar de verdade.

O pior cenário é exatamente o do meio: desembarcar dois ou três dias antes. É quando o mal-estar agudo já se instalou e a adaptação fisiológica ainda não aconteceu. O time treina mal, dorme mal e entra em campo na pior janela possível.

Na prática, nenhum clube brasileiro tem duas semanas livres no meio de um Brasileirão. Sobra a primeira opção, que reduz o dano mas não resolve nada.

Quando a FIFA proibiu a altitude, e por que voltou atrás

O assunto já foi mais do que reclamação de vestiário. Em fevereiro de 2007, depois de um jogo em que jogadores precisaram de máscaras de oxigênio, o Flamengo abriu uma campanha formal contra as partidas em altitude extrema. A FIFA comprou a briga, e o que veio depois foi um recuo atrás do outro.

  • Maio de 2007: a FIFA proíbe partidas internacionais acima de 2.500 metros, alegando que a condição é desumana e desleal.
  • Junho de 2007: o limite sobe para 3.000 metros, com exigência de duas semanas de aclimatação.
  • Dezembro de 2007: sob pressão da Conmebol, o teto desce para 2.750 metros.
  • Maio de 2008: a FIFA suspende o veto até que se conheçam os resultados de um estudo sobre futebol em condições extremas.

Quatro posições diferentes em doze meses. A reação política explica o vaivém: Evo Morales, então presidente da Bolívia, transformou o assunto em causa nacional, Diego Maradona chamou a decisão de ridícula, e em janeiro de 2008 o presidente Lula declarou apoio à posição boliviana. O estudo prometido nunca produziu uma regra nova, e o veto simplesmente nunca voltou.

💡 Curiosidade

O protesto boliviano não foi só discurso. Evo Morales organizou partidas em altitudes entre 5.300 e 6.000 metros, com Maradona entre os participantes, para demonstrar que se jogava futebol bem acima do limite que a FIFA queria impor. Nenhum estádio profissional do mundo chega perto dessas marcas.

O 6 a 1 que os dois lados usam como argumento

Em 1º de abril de 2009, pela décima segunda rodada das eliminatórias da Copa de 2010, a Bolívia recebeu a Argentina no Hernando Siles e venceu por 6 a 1. No banco argentino estava Maradona, então técnico. Em campo, um Lionel Messi de 21 anos.

Marcelo Martins Moreno abriu o placar aos 11 minutos, Luis González empatou aos 24, e a partir daí foi só Bolívia: Joaquín Botero marcou três vezes, aos 33, aos 54 e aos 65, Álex da Rosa fez aos 45 e Didí Torrico fechou aos 86. Segue sendo a maior derrota da Argentina na história das eliminatórias para Copas do Mundo.

O jogo virou munição para os dois lados da discussão, e isso é o mais interessante nele. Para quem defende a proibição, é a prova de que a altitude distorce o resultado a ponto de tornar a competição desigual. Para os bolivianos, é a prova oposta: eles jogam em casa, como qualquer seleção, e a proposta de banir a altitude significa dizer a um país que ele não pode receber jogos onde vive.

Os estádios que fazem diferença

Nem toda altitude pesa igual. Os números que aparecem na Conmebol com mais frequência são estes:

  • Hernando Siles, La Paz, Bolívia: cerca de 3.637 metros.
  • Víctor Agustín Ugarte, Potosí, Bolívia: cerca de 4.070 metros, um dos estádios profissionais mais altos do mundo.
  • Quito, Equador: perto de 2.800 metros.
  • Bogotá, Colômbia: perto de 2.600 metros.

Bogotá e Quito ficam na faixa em que o efeito existe mas é administrável. La Paz e Potosí estão em outro patamar, e é sobre eles que a discussão sempre foi.

Existe solução

A via regulatória foi tentada e fracassou em um ano. As alternativas que circulam desde então esbarram todas no mesmo ponto. Campo neutro tira o mando de quem se classificou para tê-lo. Janela obrigatória de aclimatação exige espaço num calendário que não tem espaço. Limitar a altitude é, no fim, limitar um país.

E esse é o nó que a fisiologia não resolve. O problema esportivo é real e mensurável, mas a resposta esbarra numa questão que não é esportiva: onde uma seleção tem o direito de jogar em casa. Enquanto isso não for respondido, e não parece que será, todo time brasileiro que sobe a serra na Libertadores ou na Sul-Americana vai continuar tendo noventa minutos para resolver um problema que começou muito antes de a bola rolar.

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