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Tragédia do voo da Chapecoense: o dossiê completo do acidente de 2016

O que a investigação oficial concluiu sobre a queda do voo LaMia 2933, a campanha que levou a Chapecoense à final, o que houve com os seis sobreviventes e como o clube chegou de volta à Série A em 2026.

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Redação Futemais
18 min de leitura

⚡️ Leitura dinâmica

  • Dossiê do acidente de 28 de novembro de 2016, que matou 71 das 77 pessoas a bordo do voo LaMia 2933.
  • O relatório final da Aerocivil, de 27 de abril de 2018, apurou que o avião decolou com déficit de 2.303 kg de combustível.
  • Traz a campanha da Sul-Americana, os seis sobreviventes, a CPI do Senado de 2022 e a reconstrução do clube até 2026.
  • Corrige a data do relatório da CPI e esclarece que os US$ 25 milhões são de um fundo humanitário, não do limite da apólice.

Na noite de 28 de novembro de 2016, um Avro RJ85 da companhia boliviana LaMia caiu numa encosta a poucos quilômetros do aeroporto de Medellín, na Colômbia. A bordo estava a delegação da Chapecoense, que ia disputar a primeira final internacional da história do clube. Das 77 pessoas no avião, 71 morreram. O avião não explodiu porque não havia mais combustível para queimar, e foi exatamente a falta desse combustível que o derrubou.

Este texto reúne o que a investigação oficial estabeleceu, do plano de voo irregular assinado em Santa Cruz de la Sierra ao relatório final da autoridade aeronáutica colombiana, publicado em abril de 2018. Traz também a campanha que levou a Chapecoense àquela final, o que aconteceu com os seis sobreviventes e como o clube se reconstruiu até voltar à Série A em 2026. Todos os números, datas e conclusões foram conferidos em fontes primárias e no noticiário da época.

Origem e ascensão da Chapecoense, de 1973 a 2016

A Associação Chapecoense de Futebol foi fundada em 1973, em Chapecó, no oeste de Santa Catarina. Ganhou títulos estaduais logo cedo e virou referência regional, mas atravessou uma crise séria no início dos anos 2000, com risco real de desaparecer.

A recuperação começou em 2007, com o título catarinense. Em 2009 veio o acesso à Série C, em 2012 o acesso à Série B e em 2013 o acesso à Série A. Em 2014, a Chapecoense disputou a elite do futebol brasileiro pela primeira vez desde 1978, e se manteve nela em 2014 e 2015.

Em 2016 o clube viveu seu melhor momento: foi campeão catarinense e terminou o Campeonato Brasileiro em 11º lugar, a melhor colocação de sua história na primeira divisão. E chegou, pela primeira vez, à final de um torneio continental.

A campanha da Chapecoense na Copa Sul-Americana de 2016

A Chapecoense entrou na Sul-Americana de 2016 sem favoritismo nenhum e passou por três adversários de peso.

Na fase nacional, perdeu para o Cuiabá por 1 a 0 fora e venceu por 3 a 1 na Arena Condá. Nas oitavas, encarou o Independiente, sete vezes campeão da Libertadores: dois empates sem gols, em Avellaneda e em Chapecó, e classificação nos pênaltis, com o goleiro Danilo defendendo quatro cobranças.

Nas quartas, perdeu por 1 a 0 para o Junior Barranquilla na Colômbia e virou com 3 a 0 em casa, com gols de Thiago Thiego, Gil e Ananias. Na semifinal, contra o San Lorenzo, empatou em 1 a 1 em Buenos Aires e em 0 a 0 na volta, avançando pelo gol fora de casa. Nos acréscimos daquele jogo, Danilo fez uma defesa à queima-roupa que segurou a classificação.

A final seria contra o Atlético Nacional, de Medellín: ida em 30 de novembro, no Atanasio Girardot, e volta em 7 de dezembro, no Couto Pereira, em Curitiba, porque a Arena Condá não comportava a decisão. Se você já se perguntou por que o nome do torneio aparece grafado de duas formas, explicamos em Sul-Americana ou Sudamericana, qual é a forma correta.

💡 Curiosidade

Nenhum clube de Santa Catarina havia chegado a uma final continental antes da Chapecoense em 2016. Depois da semifinal contra o San Lorenzo, o técnico Caio Júnior resumiu a noite com uma frase que a torcida repetiria em outro tom poucos dias depois: "se eu morresse hoje, morreria feliz".

Por que a delegação embarcou num voo fretado boliviano

Não havia voo comercial direto em horário viável para Medellín. O clube fretou um avião da LaMia, empresa pequena sediada na Bolívia. A ideia original era sair do Brasil direto para a Colômbia, mas a legislação aeronáutica não permite que uma empresa de um terceiro país opere um trecho entre outros dois, e a autorização foi negada.

A delegação então voou de São Paulo a Santa Cruz de la Sierra num voo comercial e ali embarcou no Avro RJ85 da LaMia, registro CP-2933. O plano previa uma escala de reabastecimento em Cobija, no norte da Bolívia, antes de atravessar os Andes.

A decolagem de Santa Cruz atrasou. Com o atraso, a escala em Cobija foi descartada, porque o aeroporto já não estaria operando na chegada. A tripulação decidiu ir direto de Santa Cruz a Medellín, uma rota no limite absoluto da autonomia do RJ85.

Ainda em terra, a funcionária Celia Castedo, do órgão boliviano AASANA, apontou o problema no plano de voo: o tempo estimado de voo e a autonomia declarada eram idênticos, sem a reserva exigida e sem aeroporto alternativo. Ela registrou observações, mas afirmou não ter autoridade para barrar a decolagem. O plano foi aprovado assim mesmo.

O voo LaMia 2933 decolou no fim da tarde de 28 de novembro com 77 pessoas a bordo: 68 passageiros, incluindo a delegação e profissionais de imprensa, e 9 tripulantes.

O que aconteceu na noite de 28 de novembro de 2016

Depois de cerca de quatro horas de voo, já perto do Aeroporto Internacional José María Córdova, que serve Medellín, o piloto Miguel Quiroga informou à torre que enfrentava problema de combustível e pediu prioridade para pousar. A controladora respondeu que outra aeronave já estava em aproximação de emergência e pediu que o LaMia aguardasse em espera.

Pouco depois o piloto declarou emergência por combustível. Segundo a gravação da cabine, divulgada na apuração do caso, ele chegou a comunicar à torre que estava em falha total e sem combustível. A última transmissão captada é do copiloto, um grito de "Jesus", seguido de silêncio.

Por volta das 22h15 no horário local, a aeronave sofreu falha total, elétrica e de motores, e sumiu do radar. Caiu numa área montanhosa chamada Cerro Gordo, no município de La Unión, a cerca de 17 quilômetros do aeroporto. A distância total entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín é de aproximadamente 2.960 quilômetros, praticamente o alcance máximo do Avro RJ85 sem reabastecimento.

Como não havia combustível a bordo, não houve incêndio depois do impacto, o que aumentou a chance de sobrevivência de quem estava nas posições menos atingidas. Das 77 pessoas, 71 morreram e 6 sobreviveram. O goleiro Danilo, o mesmo das defesas contra Independiente e San Lorenzo, foi resgatado com vida e morreu no hospital.

Investigações e as causas oficiais do acidente

A Aeronáutica Civil da Colômbia, a Aerocivil, abriu investigação imediatamente. Um relatório preliminar divulgado ainda em dezembro de 2016 já afastava falha técnica, sabotagem e atentado, e apontava a exaustão de combustível.

O relatório final foi entregue em 27 de abril de 2018. As conclusões:

  • A LaMia planejou o voo direto de Santa Cruz a Rionegro sem a quantidade mínima de combustível exigida pelas normas internacionais.
  • O avião decolou com 9.073 kg de combustível. O déficit em relação ao mínimo obrigatório foi de 2.303 kg.
  • Empresa e tripulação sabiam disso e ainda assim não planejaram parada para reabastecimento em rota, em Bogotá ou em outro aeroporto.
  • Os alertas de baixo combustível soaram muito antes da queda e não levaram a uma mudança de plano.
  • A emergência só foi declarada quando o esgotamento já era iminente, o que atrasou a prioridade de pouso.
  • Havia deficiências organizacionais graves na LaMia, incluindo situação financeira precária e falhas na gestão de segurança operacional.

Em resumo: erro humano e falha de planejamento, agravados por descumprimento de normas básicas. Nenhuma falha mecânica, nenhuma condição meteorológica extrema.

Quem quiser acompanhar a mecânica do voo em detalhe, do plano de combustível ao último minuto no radar, encontra a explicação abaixo. É o episódio do canal Aviões e Músicas, apresentado por Lito, que refaz o trajeto do LaMia 2933 com base nos dados da investigação.

O que aconteceu na Bolívia

No dia seguinte ao acidente, a autoridade aeronáutica boliviana suspendeu a licença da LaMia. O governo afastou dirigentes da aviação civil e da AASANA. O diretor-geral da LaMia, Gustavo Vargas, foi preso e indiciado. Investigou-se a influência indevida de um funcionário da agência de aviação, filho dele, na aprovação do plano de voo.

Celia Castedo, a funcionária que havia apontado as irregularidades, virou alvo de investigação por não ter impedido a decolagem. Ela deixou o país e pediu refúgio no Brasil, alegando que superiores tentaram coagi-la a alterar seu relatório e que não esperava tratamento justo na Bolívia.

A CPI do Senado e as indenizações

No Brasil, o Senado instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o caso. O relatório final, do senador Izalci Lucas, foi aprovado em 11 de julho de 2022.

O texto apontou cinco empresas como igualmente responsáveis por indenizar as vítimas e as famílias: a LaMia Corporation, a seguradora boliviana Bisa Seguros, a resseguradora Tokio Marine Kiln e as corretoras Aon UK e Grupo Estratégica, todas ligadas à emissão de uma apólice sob suspeita de fraude.

Durante os trabalhos da CPI, o Fundo de Assistência Humanitária destinado às famílias foi ampliado de US$ 15 milhões para US$ 25 milhões. Ainda assim, o processo de reparação se arrastou por anos e por tribunais de vários países, e não se encerrou de uma vez.

Os seis sobreviventes do voo da Chapecoense

Seis pessoas saíram vivas dos destroços, e o que salvou cada uma tem menos a ver com sorte pura do que costuma parecer: posição no avião, cinto afivelado, posição de impacto. As trajetórias depois de 2016 seguiram caminhos muito diferentes.

Alan Ruschel, lateral-esquerdo

Foi o primeiro resgatado com vida. Sofreu lesões graves na coluna, além de fraturas, e passou por cirurgias e meses de fisioterapia. Em menos de um ano estava de volta ao futebol profissional.

O retorno virou cena: em agosto de 2017, Ruschel entrou em campo no Camp Nou, pelo Troféu Joan Gamper, no amistoso entre Barcelona e Chapecoense, e recebeu aplausos de pé do estádio inteiro. Depois voltou a jogar em competições oficiais, capitaneou a Chapecoense e seguiu carreira em outros clubes.

Jakson Follmann, goleiro

Tinha 24 anos e era o goleiro reserva. Teve parte da perna direita amputada em razão dos ferimentos, o que encerrou a carreira nos gramados.

Follmann passou a usar prótese, virou embaixador da Chapecoense e construiu uma segunda carreira como cantor e palestrante. Em 2019, venceu o programa musical PopStar, da Globo. Em aparições públicas, costuma dedicar as apresentações aos companheiros que morreram.

Hélio Zampier Neto, zagueiro

Conhecido como Neto, foi o último sobrevivente encontrado nos destroços, resgatado horas depois dos demais, quando as equipes já não esperavam achar mais ninguém com vida. Teve múltiplas fraturas e trauma craniano e ficou muito tempo internado em estado delicado.

Voltou a caminhar, retomou os treinos com bola em 2018 e chegou a cogitar o retorno, mas não voltou a jogar profissionalmente por orientação médica. Tornou-se uma das vozes mais ativas na cobrança por justiça às famílias.

Rafael Henzel, jornalista

Único jornalista sobrevivente, Henzel era narrador de rádio e cobria a Chapecoense havia anos. Teve lesões graves no tórax e nas pernas, e voltou a narrar jogos do clube ainda em 2017, poucos meses depois do acidente. Escreveu o livro Viva Como Se Estivesse de Partida e passou a dar palestras sobre a experiência.

Morreu em 26 de março de 2019, aos 45 anos, de infarto, enquanto jogava futebol com amigos em Chapecó. A cidade, que o tinha como símbolo da superação, viveu o luto uma segunda vez.

Ximena Suárez, comissária de bordo

Integrante da tripulação boliviana, Ximena contou depois que, na queda, abraçou uma mala e assumiu posição fetal entre as poltronas, o que provavelmente reduziu o impacto sobre o corpo dela. Sobreviveu com ferimentos e se afastou da aviação, enfrentando um período longo de sequelas emocionais.

Erwin Tumiri, técnico de voo

Boliviano, membro da tripulação técnica, atribui a sobrevivência a ter mantido o cinto afivelado e adotado a posição de impacto nos segundos finais, procedimento que a maioria dos passageiros não teve tempo ou informação para executar.

A história dele ganhou um segundo capítulo improvável. Em 2 de março de 2021, Tumiri viajava num ônibus entre Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra quando o veículo caiu de um barranco de cerca de 150 metros na região de Ivirgarzama. Vinte e uma das 52 pessoas a bordo morreram. Tumiri sofreu uma lesão no joelho, que exigiu cirurgia, e escoriações. Passou a ser convidado para palestras sobre segurança e comportamento em acidentes.

A comoção, o velório e a solidariedade do futebol

A notícia atravessou o mundo na manhã de 29 de novembro. O governo brasileiro decretou luto oficial de três dias. Em Chapecó, milhares de pessoas foram espontaneamente à Arena Condá para uma vigília que atravessou a noite.

Clubes de todos os continentes fizeram minuto de silêncio, entraram em campo com o escudo da Chapecoense no uniforme e vestiram verde em tributo. Em Medellín, torcedores colombianos lotaram o Atanasio Girardot na noite em que seria disputada a final, com velas e celulares acesos, para homenagear um adversário que nunca chegou.

Em 3 de dezembro de 2016, depois da identificação e liberação dos corpos na Colômbia, os caixões foram levados a Chapecó em aviões da Força Aérea Brasileira. O velório coletivo na Arena Condá, sob chuva forte, reuniu dezenas de milhares de pessoas e produziu a imagem mais lembrada da tragédia. O Atlético Nacional enviou uma delegação, aplaudida pelas arquibancadas.

No plano prático, os principais clubes brasileiros anunciaram medidas conjuntas: empréstimo gratuito de jogadores para a temporada seguinte e um pedido à CBF para que a Chapecoense ficasse protegida do rebaixamento por três anos. O clube aceitou os empréstimos e recusou formalmente a proteção contra rebaixamento, dizendo que competiria em igualdade de condições com os demais.

A batalha jurídica pelas indenizações

A parte financeira da história é a menos contada e a mais longa. A LaMia tinha apólice de seguro, mas a seguradora boliviana Bisa alegou que não poderia pagar as indenizações porque a própria LaMia estava inadimplente com o pagamento do serviço. A disputa se espalhou por tribunais na Bolívia, no Brasil, no Reino Unido e nos Estados Unidos, envolvendo companhia aérea, seguradora, resseguradora e corretoras.

Foi esse impasse que motivou a CPI do Senado. O relatório aprovado em 11 de julho de 2022 apontou indícios de fraude na emissão da apólice e nomeou cinco empresas como igualmente responsáveis pela reparação. Durante os trabalhos da comissão, o fundo humanitário destinado às famílias subiu de US$ 15 milhões para US$ 25 milhões.

Enquanto a via do seguro travava, o que sustentou o clube foi a arrecadação espontânea. Só em 2017, a Chapecoense registrou mais de R$ 28 milhões em receitas adicionais vindas de sócios-torcedores, doações e fundos criados após o acidente.

💡 Curiosidade

O Atlético Nacional, que perderia o título ao ceder a taça, foi o clube que pediu formalmente à Conmebol, em 30 de novembro de 2016, que a Chapecoense fosse declarada campeã. Pelo gesto, recebeu o prêmio Centenário Conmebol Fair Play, no valor de US$ 1 milhão, e depois o prêmio Fair Play da Fifa.

A reconstrução da Chapecoense, de 2017 a 2026

Dezenove jogadores do elenco principal morreram no acidente, além do técnico Caio Júnior, de auxiliares e de boa parte da diretoria, incluindo o presidente Sandro Pallaoro. Restaram os três atletas sobreviventes, sendo que Follmann não voltaria a jogar, alguns jogadores que não viajaram e a base.

Era um cenário duplo: o clube precisava amparar dezenas de famílias enlutadas e, ao mesmo tempo, montar um time competitivo em poucas semanas para a temporada de 2017.

Em 5 de dezembro de 2016, a Conmebol declarou a Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana, atendendo ao pedido do Atlético Nacional, e entregou ao clube a premiação de campeão, US$ 2 milhões, além das vagas na Libertadores e na Recopa de 2017.

Sob a presidência de Plínio David de Nes, empossado depois da morte de Pallaoro, e com Vágner Mancini como técnico, um elenco novo foi montado em semanas, misturando remanescentes, jogadores promovidos da base e reforços emprestados por outros clubes.

2017: o ano em que ninguém esperava nada

O time reconstruído voltou a competir já no fim de janeiro de 2017 e foi campeão catarinense. Disputou a Recopa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, num confronto cheio de homenagens: venceu por 2 a 1 em Chapecó e perdeu por 4 a 1 em Medellín, ficando com o vice.

Estreou na Copa Libertadores, foi eliminado na fase de grupos e, no Campeonato Brasileiro, terminou em 8º lugar, uma das melhores campanhas da história do clube, feita com um elenco montado às pressas menos de um ano depois de perder o anterior.

De 2018 a 2026: a oscilação

Depois vieram anos difíceis. A Chapecoense escapou do rebaixamento na última rodada em 2018, com o estádio lotado. Caiu para a Série B em 2019, encerrando seis anos seguidos na elite. Foi campeã da Série B em 2020 e voltou à primeira divisão em 2021, mas caiu de novo naquele mesmo ano.

Ficou na segunda divisão de 2022 a 2025, com um susto em 2024, quando terminou em 16º lugar e flertou com uma nova queda. Em 2025 terminou a Série B em terceiro e conquistou o acesso, voltando a disputar a Série A em 2026, quase uma década depois do acidente.

Homenagens, legado e impacto cultural

Os títulos e prêmios honorários

O gesto do Atlético Nacional, ao abrir mão do título e pedir que ele fosse dado à Chapecoense, rendeu ao clube colombiano o prêmio Centenário Conmebol Fair Play, com US$ 1 milhão, e depois o prêmio Fair Play da Fifa. A Chapecoense, por sua vez, recebeu o prêmio Laureus de melhor momento esportivo de 2017, pelo retorno dos sobreviventes aos gramados.

As homenagens permanentes

Em Chapecó, a Arena Condá ganhou um memorial às vítimas, e o troféu da Sul-Americana de 2016 segue exposto no clube. Medellín adotou Chapecó como cidade-irmã ainda em dezembro de 2016, e uma praça nos arredores do Atanasio Girardot leva o nome da Chapecoense.

Livros, documentários e o registro do caso

A história virou documentário, livro e episódio de série sobre desastres aéreos, o que levou a reconstituição técnica do acidente a um público muito além do futebol. O caso é estudado em cursos de aviação como exemplo do que acontece quando o planejamento de combustível é feito no limite e ninguém na cadeia interrompe a operação.

Dossiê Chapecó: O Jogo por Trás da Tragédia

A série documental mais completa sobre o caso é Dossiê Chapecó: O Jogo por Trás da Tragédia, produção da Pacha Films para a Warner Bros. Discovery, com quatro episódios de uma hora. Ela não se limita à queda: acompanha as investigações, a apuração sobre a apólice de seguro e a busca das famílias por reparação.

A produção reúne depoimentos exclusivos dos sobreviventes Alan Ruschel e Hélio Neto, de familiares das vítimas e de especialistas, além de reconstituições. As gravações passaram por Brasil, Colômbia, Bolívia, Paraguai, Estados Unidos e Espanha. A série foi indicada ao Emmy Internacional de 2023 na categoria de melhor documentário.

Onde assistir: a série está disponível no HBO Max, no Prime Video, no Apple TV e no discovery+. Também foi exibida no canal ID.

O que mudou na prática

Clubes e confederações passaram a fiscalizar com mais rigor os voos fretados de delegações esportivas, e a exigir comprovação de plano de voo e de reserva de combustível antes de autorizar a viagem. É a parte do legado que não aparece em homenagem nenhuma e que existe justamente porque 71 pessoas morreram por uma conta que não fechava.

A companhia que a Chapecoense não escolheu

No futebol, o clube entrou involuntariamente numa lista curta e triste, ao lado do Torino, dizimado no acidente de Superga em 1949, e do Manchester United, no desastre de Munique em 1958. Os três perderam praticamente um time inteiro num acidente aéreo. Os três se reconstruíram e continuaram existindo, o que é a única coisa nessa comparação que serve de consolo.

Linha do tempo do caso Chapecoense

DataO que aconteceu
28/11/2016Queda do voo LaMia 2933 em Cerro Gordo, La Unión, Colômbia. 71 mortos, 6 sobreviventes.
29/11/2016Bolívia suspende a licença de operação da LaMia.
30/11/2016Atlético Nacional pede à Conmebol que o título da Sul-Americana seja dado à Chapecoense.
03/12/2016Velório coletivo na Arena Condá, sob chuva.
05/12/2016Conmebol declara a Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana de 2016.
08/2017Alan Ruschel volta a campo no Camp Nou, pelo Troféu Joan Gamper.
27/04/2018Aerocivil entrega o relatório final: falta de combustível por plano de voo inadequado.
26/03/2019Morte de Rafael Henzel, aos 45 anos, de infarto.
02/03/2021Erwin Tumiri sobrevive a um acidente de ônibus na Bolívia que matou 21 pessoas.
11/07/2022CPI do Senado aprova o relatório final e responsabiliza cinco empresas.
2025Chapecoense termina a Série B em 3º e conquista o acesso à Série A de 2026.

Perguntas frequentes sobre a tragédia da Chapecoense

Quando e onde foi o acidente com o avião da Chapecoense?

Na noite de 28 de novembro de 2016, numa região montanhosa chamada Cerro Gordo, no município de La Unión, a cerca de 17 quilômetros do Aeroporto José María Córdova, que serve Medellín, na Colômbia. A queda ocorreu por volta das 22h15 no horário local.

Qual foi a causa do acidente do voo da Chapecoense?

Falta de combustível, resultado de um plano de voo inadequado. O relatório final da Aerocivil, de 27 de abril de 2018, apurou que o avião decolou com 9.073 kg de combustível, um déficit de 2.303 kg em relação ao mínimo exigido, e que empresa e tripulação não planejaram parada para reabastecer. Não houve falha mecânica nem condição meteorológica extrema.

Quantas pessoas morreram no acidente da Chapecoense?

Setenta e uma das 77 pessoas a bordo. Eram 68 passageiros e 9 tripulantes. Seis sobreviveram.

Quem sobreviveu ao acidente da Chapecoense?

Os jogadores Alan Ruschel, Hélio Zampier Neto e Jakson Follmann, o jornalista Rafael Henzel e os tripulantes bolivianos Ximena Suárez e Erwin Tumiri. O goleiro Danilo foi resgatado com vida, mas morreu no hospital, e está entre as 71 vítimas.

Por que a Chapecoense foi declarada campeã da Copa Sul-Americana de 2016?

Porque o Atlético Nacional, adversário na final, pediu formalmente à Conmebol em 30 de novembro de 2016 que o título fosse entregue ao clube brasileiro. A Conmebol atendeu em 5 de dezembro, com a premiação de US$ 2 milhões, e concedeu ao Atlético Nacional o prêmio Centenário Conmebol Fair Play, de US$ 1 milhão.

As famílias das vítimas foram indenizadas?

Em parte, e depois de uma disputa longa. A CPI do Senado, cujo relatório foi aprovado em 11 de julho de 2022, apontou cinco empresas como responsáveis pela reparação e registrou suspeita de fraude na apólice contratada pela LaMia. Durante os trabalhos da comissão, o fundo humanitário destinado às famílias subiu de US$ 15 milhões para US$ 25 milhões. Ações judiciais tramitaram em vários países e o caso não se resolveu de uma vez só.

A Chapecoense voltou à Série A?

Sim. Depois de cair em 2021 e passar quatro temporadas na segunda divisão, o clube terminou a Série B de 2025 em terceiro lugar e disputa a Série A em 2026.

Dez anos depois, o que sustenta a história da Chapecoense não é a tragédia em si, mas o que ela revelou: um plano de voo aprovado com irregularidades que estavam anotadas em papel, uma cadeia de decisões que ninguém interrompeu, e um clube inteiro que precisou ser reconstruído do zero. Os 71 nomes daquele voo são a razão pela qual protocolos de voo fretado no esporte mudaram.

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