Sede da Fifa, em Zurique. Foto: Bic/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Boicote da Uefa à Fifa: entenda a crise e a Copa de 2030
A Fifa quer vender 20% de uma empresa de US$ 20 bilhões que administraria a Copa do Mundo. As 55 federações da Uefa votaram boicote, Concacaf e AFC recusaram, o chefe de operações da própria Fifa chamou o plano de projeto de uma pessoa só e a conta de votos não fecha para Infantino.
⚡️ Leitura dinâmica
- A Fifa anunciou em 28 de julho de 2026 a Fifa Forward Enterprise, empresa avaliada em US$ 20 bilhões, e quer vender até 20% dela para levantar cerca de US$ 4,2 bilhões.
- As 55 federações da Uefa votaram boicotar todas as competições da Fifa caso o plano avance, e Concacaf e AFC também rejeitaram a proposta.
- A aprovação exige 106 dos 211 votos, e as três confederações contrárias somam 136, o que deixa no máximo 75 votos disponíveis para o plano.
- O diretor de operações da própria Fifa chamou o projeto de projeto de uma pessoa só, e o assessor Carlos Cordeiro renunciou em protesto.
- Um documento interno de 30 de julho mostra que a Fifa já estuda ampliar a Copa de 2030 de 48 para 64 seleções.
Em 19 de julho de 2026, a Espanha levantou a taça no MetLife Stadium e a Fifa declarou a Copa do Mundo um sucesso absoluto. Nove dias depois, a entidade anunciou um plano que colocou três de suas seis confederações em rebelião, fez as 55 federações europeias votarem boicote, derrubou um assessor do presidente e levou o próprio chefe de operações da Fifa a chamar o projeto de "projeto de uma pessoa só".
No meio disso está a Copa de 2030, que já era a mais complexa da história antes de qualquer briga de gabinete.
Esta matéria foi apurada até as 15h de 31 de julho de 2026. A crise segue em curso e alguns números continuam mudando.
O plano: a Fifa Forward Enterprise e os US$ 20 bilhões
Em 28 de julho de 2026, a Fifa anunciou a criação da Fifa Forward Enterprise, a FFE, uma subsidiária que passaria a administrar os direitos comerciais e operacionais das competições da entidade, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes.
A empresa é avaliada em cerca de US$ 20 bilhões, e a Fifa pretende vender uma participação minoritária de até 20% para levantar aproximadamente US$ 4,2 bilhões.
A escolha de quem distribuiria essas ações virou parte do problema. A empresa selecionada foi a Thrive Eternal, criada em abril de 2026 por Joshua Kushner, irmão mais novo de Jared Kushner, genro e conselheiro de Donald Trump. Questionado em reunião de gabinete na sexta-feira, Trump afirmou não ter discutido o plano com Infantino. A Fifa, por sua vez, não explicou publicamente o critério que levou à escolha da Thrive Eternal.
O ultimato de 53 dias e os US$ 40 milhões
O que transformou uma proposta polêmica em crise institucional foi o prazo. As 211 associações filiadas têm até 19 de setembro de 2026 para se posicionar, cerca de 53 dias.
O pacote financeiro é o centro da disputa, e vale detalhar porque ele costuma ser mal explicado:
- US$ 20 milhões por federação do programa Fifa Forward regular, no ciclo 2027 a 2030, que sairiam independentemente da posição adotada na votação.
- US$ 20 milhões adicionais do novo programa Fifa Fast Forward, de adesão voluntária, bancados pelos investidores externos.
Somando, chega-se aos US$ 40 milhões por associação que circularam nas manchetes. A Fifa apresenta a conta de outro jeito: diz que o repasse de desenvolvimento por federação subiria de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões. Se a proposta for rejeitada, permanece o programa atual, de US$ 2,7 bilhões no total.
Para uma federação pequena, 40 milhões de dólares não é ajuda, é orçamento de uma década. Foi esse desenho, prazo curto somado a incentivo grande, que a Uefa classificou como coerção.
Boicote da Uefa à Fifa: o que as confederações decidiram
Em 28 de julho, ainda antes da reunião de emergência, a Uefa publicou em seu perfil no X a primeira reação formal:
Isso cruza uma linha que as instituições que governam o futebol jamais deveriam cruzar. A alma e a governança do futebol não são ativos negociáveis.
Dois dias depois, em 30 de julho, as 55 federações europeias aprovaram em reunião virtual de emergência o boicote a todas as competições da Fifa caso o plano avance, o que inclui as Copas do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes.
No mesmo dia, a Federação Inglesa publicou comunicado próprio em seu site oficial:
Estamos lado a lado com nossos colegas europeus e apoiamos integralmente a posição coletiva. Nós nos opomos aos planos da Fifa: a Copa do Mundo pertence ao futebol e sempre pertencerá.
A Concacaf rejeitou formalmente a proposta. A AFC, da Ásia, também recusou, alegando não ter sido consultada e lamentando que um assunto dessa dimensão tenha se tornado público antes de a confederação poder examiná-lo. A CAF, da África, marcou reunião para debater o tema. A Conmebol, até o fechamento desta matéria, não havia se posicionado, o que a transforma na peça mais observada do tabuleiro.
A conta de votos que não fecha
A aprovação exige 106 votos entre os 211 filiados. A distribuição é esta:
- Uefa: 55 votos, contra
- AFC: 46 votos, contra
- Concacaf: 35 votos, contra
- CAF: 54 votos, indefinida
- Conmebol: 10 votos, indefinida
- OFC: 11 votos, indefinida
As três confederações contrárias somam 136 votos. Restam 75. Ou seja: mesmo com apoio unânime de África, América do Sul e Oceania, a proposta chegaria a 75, trinta e um votos abaixo do necessário.
Existe uma ressalva importante que raramente aparece nas manchetes: posição de confederação não vincula o voto de cada federação filiada. A votação é individual e secreta, e 40 milhões de dólares é muito dinheiro para uma federação de país pequeno. A disputa real vai acontecer dentro dos blocos, não entre eles.
A crise dentro da própria Fifa
O capítulo mais grave do dia não veio de fora, veio de dentro.
O diretor de operações da Fifa, o francês Kevin Lamour, no cargo desde 2024 e que trabalhou com Infantino também na Uefa, criticou publicamente o plano em declaração divulgada pela agência Associated Press. Disse que funcionários foram enganados pela falta de transparência e classificou a proposta nos seguintes termos:
É o projeto de uma pessoa só. Este projeto não apenas não pode seguir adiante, como chegou a hora de os líderes políticos do futebol fazerem as perguntas certas e tomarem as decisões corretas.
Lamour afirmou ainda que os funcionários da entidade merecem mais do que desprezo e intimidação, e assumiu o risco: "E, se isso significar que vou perder meu trabalho, que assim seja. Vou entender e respeitar essa decisão. Pelo menos dormirei bem esta noite." Ele não renunciou.
Quem renunciou foi Carlos Cordeiro, assessor de Infantino, em protesto contra o projeto. Ex-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e ex-executivo do Goldman Sachs, Cordeiro representava a Fifa no grupo de trabalho da Casa Branca para a Copa de 2026.
O que a Fifa responde
A entidade divulgou comunicado em 31 de julho rebatendo as críticas. A frase central:
Ninguém está vendendo o futebol. Isso não é algo que a Fifa cogitaria.
A Fifa sustenta que a FFE seria uma subsidiária totalmente controlada pela própria entidade, que o controle permaneceria permanentemente com ela e que não haveria mudança na estrutura de governança. Afirma também que os recursos gerados seriam compartilhados entre as 211 associações.
Sobre o processo, a entidade alegou que a consulta foi prejudicada por informações incorretas divulgadas pela imprensa, e defendeu que nenhuma organização pode falar em nome de todas as federações filiadas, uma resposta direta à posição coletiva da Uefa. Infantino resumiu a proposta como "uma oferta, não uma obrigação".
O Congresso da Fifa que deve decidir o assunto está marcado para 18 de março de 2027, em Rabat, no Marrocos, um dos países-sede da Copa de 2030. Na mesma data acontece a eleição presidencial da entidade. Ou seja, o futuro comercial da Copa do Mundo e o futuro de quem comanda a Fifa serão votados no mesmo dia, dentro de um dos países anfitriões do próprio torneio.
A Copa de 64 seleções que já está em estudo
O temor declarado das confederações é que investidores privados pressionem por mais jogos, mais torneios e mais receita. Não é hipótese distante, e a prova apareceu na mesma semana.
Um documento interno da Fifa datado de 30 de julho de 2026, revelado pelo jornalista inglês Martyn Ziegler, mostra que a entidade iniciou estudos para ampliar a Copa de 48 para 64 seleções já em 2030. O material se chama "Potential expansion of the Fifa World Cup to 64 teams" e prevê a contratação de uma agência independente para avaliar os impactos esportivos, comerciais e operacionais.
Seria a segunda expansão consecutiva. Entre 1998 e 2022 a Copa teve 32 seleções, passou a 48 em 2026, e agora estuda 64.
O desgaste de Infantino e a articulação por um rival
Eleito em 2016 para restaurar a confiança na Fifa depois dos escândalos que derrubaram Joseph Blatter, Infantino chegou a esta crise com autoridade moral já corroída.
Em 27 de julho, oito dias após a final da Copa do Mundo, ele publicou no Instagram uma defesa do torneio em 15 slides. Acusou críticos de estarem consumidos por ódio e de espalharem boatos falsos, e sugeriu que, em vez de gastar tempo e energia odiando a entidade, essas pessoas fossem "meditar, rezar ou assistir a uma partida de futebol". Encerrou dizendo estar incrivelmente orgulhoso de ter contribuído, ainda que um pouco, para aquele espetáculo.
Antes disso, dois episódios da própria Copa já haviam gerado desgaste: a criação de um prêmio da paz da Fifa sem critérios divulgados, entregue a Donald Trump durante o sorteio, e a anulação do cartão vermelho do atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, após pedido do presidente norte-americano.
O resultado político é que Infantino, que caminhava para uma reeleição sem adversário, passou a ter um nome articulado contra ele. Segundo o jornal The Telegraph, dirigentes europeus veem Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain e da Qatar Sports Investments, como o único com influência suficiente para enfrentá-lo em março de 2027. Vale a ressalva: um representante de Al-Khelaifi afirmou que ele não tem intenção de se candidatar.
A Copa de 2030 e a ironia dos anfitriões
A Copa de 2030 será disputada entre 8 de junho e 21 de julho, com 48 seleções e 104 jogos, em seis países e três continentes.
Espanha, Portugal e Marrocos recebem a maior parte das partidas, em 17 cidades e 20 estádios. Argentina, Paraguai e Uruguai sediam os jogos do centenário, em homenagem aos cem anos da primeira Copa, disputada no Uruguai em 1930. A abertura está prevista para o Estádio Centenário, em Montevidéu.
E aqui aparece a ironia mais cruel da crise: Espanha e Portugal são federações da Uefa, as mesmas que votaram o boicote. Se a ameaça for cumprida, os países-sede ficariam de fora da Copa que estão organizando em casa.
Imigrantes entre Espanha e Marrocos: a crise entre dois anfitriões
A candidatura de 2030 foi apresentada como ponte entre Europa e África. Nos últimos dois dias, essa relação passou pelo teste mais duro em cinco anos, por motivos que nada têm a ver com futebol.
Entre a tarde de 30 de julho e a manhã de 31, mais de 50 mil pessoas atravessaram em menos de 24 horas a fronteira entre o Marrocos e Ceuta, enclave espanhol no norte da África, no maior movimento do tipo desde 2021. O total apurado chegou a cerca de 60 mil.
Ao menos 57 pessoas morreram durante a travessia, número atualizado até as 15h de 31 de julho e que subiu ao longo do dia, tendo sido divulgado inicialmente como 19. Segundo o Ministério do Interior espanhol, mais de 48 mil já haviam retornado ao Marrocos.
A Espanha enviou o Exército para apoiar a Guarda Civil, e o primeiro-ministro Pedro Sánchez foi a Ceuta. O Marrocos reivindica a soberania sobre Ceuta e Melilla desde a independência, em 1956, e a Espanha se recusa a negociar o tema.
Centros de pesquisa europeus classificam episódios assim como instrumentalização da migração, ou seja, o relaxamento deliberado do controle fronteiriço como instrumento de pressão diplomática. Não é a primeira vez: em maio de 2021, mais de 8 mil pessoas entraram em Ceuta em um único dia, cerca de 10% da população da cidade, depois que a Espanha recebeu para tratamento médico Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, que defende a independência do Saara Ocidental, território reivindicado pelo Marrocos.
É preciso ser claro sobre os limites do que se pode afirmar: não há nenhuma declaração oficial ligando a crise migratória à organização da Copa, e nada indica que o torneio esteja ameaçado por ela. O que existe é um dado de contexto que importa: o Mundial vendido como símbolo de cooperação entre os dois países depende de uma relação bilateral que se rompeu duas vezes em cinco anos.
Perguntas frequentes
A Fifa está vendendo a Copa do Mundo?
Não a competição em si. A proposta é vender até 20% de uma subsidiária que administraria os direitos comerciais e operacionais dos torneios. A Fifa afirma que manteria o controle permanente da empresa e que a governança não mudaria. Os críticos respondem que quem compra participação passa a ter interesse legítimo em opinar sobre calendário, formato e número de jogos.
O boicote da Uefa já está valendo?
Não. É uma decisão condicional: as 55 federações europeias se comprometeram a boicotar as competições da Fifa caso o plano avance. Se a proposta for retirada ou rejeitada, o boicote não se aplica.
A Espanha pode ficar fora da Copa que vai sediar?
Nesse cenário extremo, sim. Espanha e Portugal são filiadas à Uefa e participaram da decisão. É justamente esse absurdo prático que faz muitos analistas tratarem o boicote como instrumento de pressão, e não como desfecho provável.
Quantos votos a Fifa precisa e quando será a votação?
São necessários 106 votos entre 211 federações. As associações têm até 19 de setembro de 2026 para se manifestar, e a decisão formal está prevista para o Congresso da Fifa de 18 de março de 2027, em Rabat, no Marrocos.
Quanto cada federação receberia?
Até US$ 40 milhões, divididos em US$ 20 milhões do programa Forward regular, que sairiam de qualquer forma, e US$ 20 milhões extraordinários do Fast Forward, de adesão voluntária e bancados por investidores externos.
Infantino pode perder o cargo?
A eleição é em março de 2027. Dirigentes europeus articulam o nome de Nasser Al-Khelaifi como alternativa, mas um representante dele afirma que não pretende se candidatar. Até esta crise, Infantino caminhava para a reeleição sem adversários.
A Copa de 2030 vai ter 64 seleções?
Ainda não está decidido. A Fifa iniciou estudos formais para avaliar a ampliação de 48 para 64 e pretende contratar uma agência independente para medir os impactos antes de decidir.
A pergunta de fundo
Tirando o barulho, a discussão é antiga e simples de enunciar: de quem é a Copa do Mundo?
A Fifa argumenta que detém os direitos comerciais e que capital privado acelera o desenvolvimento do esporte onde ele mais falta. As confederações rebeladas respondem que a competição não é ativo financeiro, e que quem entra por 20% hoje vai querer opinar sobre o calendário amanhã.
Essa tensão não começou em 2026 e não termina em setembro. É a mesma que aparece na expansão para 48 seleções, no Mundial de Clubes ampliado, no estudo das 64 e em cada proposta de Copa a cada dois anos. A pergunta se repete há décadas, e a resposta define o futebol que será jogado nas próximas.
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