Carlo Ancelotti antes de Brasil e Marrocos na Copa de 2026. Foto: YantsImages/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Quantos técnicos estrangeiros já treinaram a seleção brasileira
Ancelotti é o quarto, e os três antes dele somam sete jogos em um século. Entre eles, um argentino que comandou o Brasil no Dia da Independência porque a CBD escalou o Palmeiras inteiro para representar a seleção.
⚡️ Leitura dinâmica
- Ancelotti é o quarto estrangeiro a treinar a seleção brasileira, e o primeiro a comandá-la numa Copa do Mundo.
- Antes dele foram três: o uruguaio Ramón Platero em 1925, o português Joreca em 1944 e o argentino Filpo Núñez em 1965, que somam sete partidas.
- Em 7 de setembro de 1965, o Palmeiras inteiro representou o Brasil na inauguração do Mineirão, com jogadores e comissão técnica do clube, e por isso um argentino dirigiu a seleção.
- Entre 1965 e 2025 nenhum estrangeiro assumiu o cargo, sustentado pelos cinco títulos mundiais conquistados com treinadores brasileiros.
- Na Copa de 2026 o Brasil caiu para a Noruega por 2 a 1 e terminou em 11º, a primeira vez em 36 anos que não chegou às quartas de final.
Quando Carlo Ancelotti sentou no banco brasileiro numa Copa do Mundo, em 2026, virou o primeiro estrangeiro a fazer isso na história da seleção. O que quase ninguém lembra é que ele não é o primeiro estrangeiro a treinar o Brasil. É o quarto.
E os três anteriores, somados, comandaram a seleção em sete partidas. Em um século.
Ramón Platero, 1925
O pioneiro foi o uruguaio Ramón Platero, que assumiu em 1925 e dirigiu o Brasil em quatro jogos, no Campeonato Sul-Americano daquele ano, torneio que viria a se chamar Copa América. A edição teve apenas três seleções, e o Brasil terminou em segundo: bateu o Paraguai duas vezes, por 5 a 2 e 3 a 1, empatou em 2 a 2 com a Argentina e perdeu para os argentinos por 4 a 1.
Era outro futebol e outro país. A seleção mal existia como projeto contínuo, os jogadores eram amadores e a ideia de um treinador de carreira ainda estava se formando. Contratar um uruguaio, na época, era buscar quem entendia mais do assunto: o Uruguai seria campeão olímpico em 1924 e em 1928, e campeão do mundo em 1930.
Joreca, 1944
Dezenove anos depois veio o português Joreca, que dividiu o comando com Flávio Costa em dois amistosos contra o Uruguai, em 1944. Os dois jogos terminaram em goleada brasileira: 6 a 1 no Rio, em 14 de maio, e 4 a 0 em São Paulo, quatro dias depois.
Foi uma passagem curta e compartilhada, do tipo que raramente aparece nas listas de treinadores da seleção.
Filpo Núñez, 1965: um argentino no Dia da Independência
Esta é a melhor história das quatro, e ela é quase inacreditável.
Em 7 de setembro de 1965, o Mineirão seria inaugurado com um amistoso entre Brasil e Uruguai. A CBD, antecessora da CBF, resolveu que quem representaria o Brasil naquele jogo seria o Palmeiras inteiro, campeão do Torneio Rio-São Paulo havia menos de quatro meses.
Não foi uma base de jogadores, foi o clube todo. Pela primeira e única vez na história, a delegação brasileira foi formada integralmente por membros de um único clube, incluindo jogadores e comissão técnica. E o técnico do Palmeiras era o argentino Filpo Núñez.
O Brasil venceu por 3 a 0. No Dia da Independência, contra o Uruguai, com um argentino no banco.
Filpo Núñez terminou a passagem pela seleção com um jogo, uma vitória e aproveitamento de 100%, marca que nenhum treinador brasileiro com carreira longa no cargo conseguiu manter. Vale a ressalva de que a situação era circunstancial: o técnico oficial do Brasil naquele período era Vicente Feola. Se Filpo entra ou não na lista de treinadores da seleção é discussão que os historiadores do futebol nunca encerraram.
Por que o Brasil demorou cem anos
Entre 1965 e 2025 não houve nenhum. Seis décadas de porta fechada, e a explicação tem três camadas.
A primeira é o sucesso. O Brasil ganhou cinco Copas do Mundo com treinadores brasileiros, e resultado dessa magnitude encerra o debate sozinho. A segunda é cultural: consolidou-se a ideia de que só um brasileiro entenderia o jogador brasileiro, o vestiário brasileiro e a pressão de vestir aquela camisa. A terceira é institucional, porque a CBF sempre tratou o cargo como assunto de política interna, com nomes que circulavam entre clubes grandes e a seleção.
O que corroeu esse consenso foi a sequência de fracassos a partir de 2014. Quando a explicação cultural para de produzir resultado, ela vira só tradição, e tradição sem resultado é a coisa mais fácil de abandonar no futebol.
O que aconteceu com Ancelotti
O italiano assumiu em 2025, com contrato até 2030, e levou o Brasil à Copa de 2026. A campanha foi a pior em quase quatro décadas.
O Brasil caiu diante da Noruega, por 2 a 1, em 5 de julho de 2026, no MetLife Stadium, e terminou o torneio na 11ª colocação. Foi a primeira vez em 36 anos que a seleção não alcançou as quartas de final, interrompendo uma sequência de oito Copas seguidas em que havia chegado pelo menos a essa fase. A última vez que o Brasil terminara em 11º havia sido em 1966.
Ancelotti disse que, pelo que a equipe apresentou em campo, não merecia a eliminação, e seu contrato com a CBF segue valendo.
O que a conta dos quatro revela
Somados, os três estrangeiros anteriores a Ancelotti dirigiram o Brasil em sete jogos: cinco vitórias, um empate e uma derrota. É uma amostra pequena demais para significar qualquer coisa, e é exatamente esse o ponto.
Durante cem anos, o Brasil nunca testou de verdade a hipótese do técnico estrangeiro. Contratou um uruguaio quando ainda estava aprendendo a jogar, dividiu o cargo com um português por dois amistosos, e usou um argentino por acidente de calendário. O primeiro teste real começou em 2025, e a história do Brasil em Copas ganhou um capítulo que ninguém no país queria escrever.
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